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Vincent van Gogh: a história do pintor holandês que produziu quase 900 telas em menos de 10 anos

Em menos de uma década, Vincent van Gogh pintou 879 telas — 37 autorretratos entre elas

Em 25 de março de 2021, uma tela de Vincent Van Gogh (1853-1890), Cena de Rua em Montmartre (1887), foi vendida por 14 milhões de euros (cerca de R$ 77,4 milhões), em Paris.

Seis anos antes, outro quadro do pintor, Les Alyscamps (1888), foi leiloado por US$ 66 milhões (R$ 333,9 milhões), em Nova Iorque.

Muito? Nem tanto. O maior valor já pago por uma de suas obras, Retrato do Dr. Gachet (1890), foi US$ 82,5 milhões (R$ 417,4 milhões), em 1990.

Quem arrematou o quadro, uma homenagem ao médico francês Paul Gachet (1828-1909), que cuidou da saúde mental de Van Gogh em seus últimos dias de vida, foi o empresário japonês Ryoei Saito (1916-1996). Para amigos, Saito chegou a confidenciar que, quando morresse, queria ser cremado com a tela.

Extravagâncias à parte, reza a lenda que, durante sua vida, Van Gogh teria conseguido vender uma única tela, A Vinha Encarnada (1888), por módicos 400 francos, para a pintora belga Anna Boch (1848-1936).

“Não sabemos exatamente quantas pinturas Van Gogh vendeu durante a vida. À época, seu trabalho era considerado moderno demais aos olhos dos negociantes de arte”, explica Nienke Bakker, curadora do Museu Van Gogh, em Amsterdã, na Holanda.

“Quando jovem, ele chegou a trocar algumas de suas telas por um prato de comida ou alguns tubos de tinta.”

A carreira de Van Gogh durou pouco: de dezembro de 1881 a julho de 1890. Em menos de uma década, pintou 879 telas. Só de autorretratos, foram 37.

Na falta de dinheiro para contratar modelos, recorria a um espelho para pintar a si mesmo: fumando cachimbo (1885), com chapéu de palha (1887), diante do cavalete (1888), com a orelha cortada (1889)…

Ou pintava alguns conhecidos que não cobravam cachê para posar, como o carteiro Joseph Roulin, retratado em O Carteiro Joseph Roulin (1888); Julien Tanguy, o dono de uma loja de pintura em Paris, em Retrato de Père Tanguy (1887), ou Marie Ginoux, a dona de um restaurante em Arles, em A Arlesiana (1888).

Em seus últimos anos de vida, trabalhava uma média de 16 horas por dia. Comia mal, dormia pouco, bebia demais.

Das mais de 800 telas a óleo que produziu, seis estão entre as mais famosas da pintura universal: A Cadeira de Van Gogh com Cachimbo (1888), Os Girassóis (1888), Terraço do Café à Noite (1888), Quarto em Arles (1889), A Noite Estrelada (1889) e A Igreja de Auvers (1890).

“A noite estrelada traz certa transcendência religiosa”, analisa Felipe Martinez, doutor em História da Arte pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Antes de ser pintor, Van Gogh tentou carreira como pastor. Não deu certo. Depois do fracasso, nunca mais falou em Deus. Mas, algum tempo depois de pintar esse quadro, explicou para seu irmão Theo que, quando sentia falta de Deus, tentava procurá-lo nas estrelas”.

Amigo de fé, irmão camarada

Se teve algo que Van Gogh gostou de fazer tanto quanto pintar quadros foi escrever cartas. Só para o irmão Theo (1857-1891), quatro anos mais novo, redigiu 652.

A primeira em 29 de setembro de 1872 e a última no dia de sua morte. Todas foram guardadas por Johanna van Gogh-Bonger (1862-1925), cunhada do pintor, e reunidas no livro Cartas a Théo (1914).

Por incontáveis vezes, Theo emprestou dinheiro ao irmão e deu-lhe conselhos em momentos difíceis. Os dois eram tão próximos que, coincidência ou não, Theo morreu apenas seis meses depois de Vincent.

Hoje, estão sepultados, lado a lado, no cemitério de Auvers-sur-Oise, na França.

Vincent Willem van Gogh nasceu no dia 30 de março de 1853, no vilarejo holandês de Zundert, quase na fronteira com a Bélgica. Morreu aos 37 anos, em 27 de julho de 1890, em Auvers.

Era o primogênito de seis irmãos: Anne, Elisabeth, Wil (Wilhelmina), Cor e Theo.

Van Gogh não cresceu numa família de artistas. Seu pai, Theodorus, era pastor calvinista. Tampouco foi um menino prodígio. Só descobriu sua vocação aos 27 anos.

Antes disso, trabalhou como negociante de arte, professor de internato e balconista de livraria. Até pregador, igual ao pai, tentou ser.

“Sinto-me atraído pela religião”, disse, certa vez, em carta ao irmão. “O ofício de pintor é belo, mas o de pastor é sagrado.”

Sua vida como missionário, porém, durou pouco. Como não tinha o dom da oratória, foi logo dispensado.

No campo amoroso, Van Gogh foi tão malsucedido quanto no religioso. Colecionou amores não-correspondidos, como Eugénie Loyer, a filha de sua senhoria, e Kee Vos Stricker, uma prima viúva.

Em 1882, conheceu e se apaixonou por Clasina (Sien) Maria Hoornik, uma prostituta alcoólatra. Os dois chegaram a morar juntos por um tempo, mas o relacionamento não vingou.

“Não é possível viver sem amor”, desabafou, noutra ocasião. “Tenho de encontrar uma mulher. Caso contrário, ficarei congelado e me transformarei em pedra.”

Geniais ou geniosos?

Van Gogh morou em diferentes cidades: Bruxelas, Londres, Paris… Na capital francesa, onde viveu por dois anos, fez amizade com outros pós-impressionistas, como Paul Cézanne (1839-1906), Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) e Paul Gauguin (1848-1903).

Depois de uma temporada em Paris, viajou para Arles, no sul da França, em fevereiro de 1888. Lá, tentou fundar uma comunidade de artistas. Chegou a alugar uma casa, eternizada em A Casa Amarela (1888), como sede da colônia.

“A ideia do pintor holandês era criar uma espécie de cooperativa sob a liderança do francês”, explica Martinez.

“Queria que os pintores pudessem dividir a renda das pinturas vendidas e construir um espaço no qual só teriam que se preocupar com arte”.

O único a aceitar o convite de Van Gogh foi Gauguin e, mesmo assim, por apenas dois meses. Por divergências artísticas e pessoais, logo começaram a brigar.

“Ambos eram geniais, mas tinham temperamentos antagônicos”, explica a dramaturga Thelma Guedes, autora da peça Van Gogh por Gauguin (2019).

“Excessivamente metódico, Gauguin demorava a pintar seus quadros e procurava sentido para tudo o que pintava. Já Van Gogh pintava com rapidez e entusiasmo impressionantes. Para pintar, era capaz de enfrentar até ventanias.”

Numa dessas brigas, Van Gogh atirou um copo de absinto em Gauguin e tentou agredi-lo com uma navalha. Arrependido do que fez, cortou o lóbulo de sua orelha esquerda e deu de presente a uma prostituta chamada Rachel.

Em seus últimos anos de vida, Van Gogh foi internado em duas instituições psiquiátricas: uma em Arles, entre dezembro de 1888 e maio de 1889; e outra em Saint-Rémy, entre maio de 1889 e maio de 1890, ambas na França. Na maioria das vezes, seu tratamento consistia em banhos gelados duas vezes por semana.

Num dos sanatórios, transformou a cela em ateliê. Foi lá, aliás, que criou uma de suas obras-primas: A Noite Estrelada. A pintura inspirou o cantor Don McLean a compor Vincent, um de seus maiores sucessos, no outono de 1970.

“Estava na varanda da minha casa em Stockbridge, Massachusetts, folheando um livro de pinturas do Van Gogh, quando veio a inspiração. Na mesma hora, larguei o livro e peguei o violão. Compus letra e música em duas horas”, recorda o cantor, de 76 anos.

“A emoção que Van Gogh desperta nas pessoas é poderosa. Isso o torna querido por todos aqueles que apreciam suas telas ou leem suas cartas”.

A razão da loucura

A canção de McLean toca em um assunto delicado: a saúde mental do holandês.

Até hoje, não se sabe ao certo o que Van Gogh tinha. As hipóteses são muitas: de sífilis a epilepsia. Algumas delas, inclusive, já foram refutadas. A mais aceita diz que sofria de um misto de transtornos: bipolar e de personalidade (borderline).

Não bastasse, alguns de seus surtos e delírios teriam sido provocados, segundo estudo recente, por abstinência alcoólica.

Sim, Van Gogh era um bebedor contumaz de absinto — bebida à base de anis e outras ervas — e fora obrigado a parar de beber quando internado. Os cientistas chegaram a tal conclusão depois de analisar centenas de cartas e prontuários médicos.

Em maio de 1890, Van Gogh deixou o sanatório de Saint-Rémy e se mudou para o vilarejo de Auvers-sur-Oise. Dois meses depois, pintou sua última tela: Campo de Trigo com Corvos (1890).

Quando soube que Theo, recém-casado e com filho pequeno, estava em dificuldade financeira, entrou em desespero. Afinal, era o irmão quem lhe mandava dinheiro para comprar quadros, tintas e pincéis.

No dia 27 de julho, Van Gogh saiu para passear em um campo próximo ao hotel onde estava e atirou contra si mesmo.

Ao descobrir o que aconteceu, Theo correu para Auvers. Van Gogh levou quase 30 horas para sucumbir ao ferimento à bala. Morreu no dia 29 de julho de 1890, por volta de uma da manhã.

“Gostaria de ir para casa agora”, teriam sido suas últimas palavras.

Como quase tudo relacionado a Van Gogh, o revólver Lefaucheux, calibre 7 mm, supostamente usado no dia do seu suicídio, também foi a leilão, quase 130 anos depois.

Há vários indícios da provável autenticidade da arma: foi encontrada em 1965 no mesmo lugar onde Van Gogh teria tentado tirar a própria vida, o calibre corresponde ao descrito pelo médico que prestou os primeiros socorros e a natureza do ferimento a bala é compatível com a baixa potência da arma. Autêntico ou não, o revólver foi vendido por 162,5 mil euros (R$ 900 mil em valores atuais).

A morte de Van Gogh devastou a saúde de seu irmão. Théo morreu em 25 de janeiro de 1891, aos 33 anos, e foi sepultado em Utrecht.

Foi Johanna van Gogh-Bonger que, em 1905, organizou a primeira exposição de Van Gogh, com 473 de suas telas, em Amsterdã. Dez anos depois, providenciou a exumação do corpo do marido e o sepultou ao lado do cunhado, em Auvers-sur-Oise.

Já o Museu Van Gogh, em Amsterdã, foi fundado, em 1973, por Vincent Willem van Gogh (1890-1978), o filho de Theo e Johanna.

A instituição abriga 200 pinturas e recebe cerca de 2 milhões de visitantes por ano. As demais obras estão espalhadas pelo mundo: no Museu de Orsay, em Paris; no The National Gallery, em Londres; no Museu de Arte Moderna, em Nova Iorque…

Em 2011, os autores da biografia Van Gogh: A Vida (Companhia das Letras), Steven Naifeh e Gregory White Smith (1951-2014), levantaram uma hipótese pertubadora: seu biografado, ao contrário do que se acredita, não teria cometido suicídio. Teria levado um tiro acidental.

Não é só isso. Teria assumido a culpa para proteger os irmãos René e Gaston Secretan que, na hora do disparo, estavam brincando com a arma.

“É mais provável que Van Gogh tenha sido baleado acidentalmente do que atirado em si mesmo”, sustenta Naifeh, historiador de arte na Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

“Sempre houve dúvidas em relação à hipótese de suicídio: onde ele conseguiu a arma? Além disso, se pretendia se matar, por que encomendou uma grande quantidade de tinta? Pelo ângulo de entrada da bala, seria difícil para ele puxar o gatilho. Isso sem falar que não havia resíduos de pólvora em suas mãos.”

O homem por trás da lenda

A intensa troca de correspondência entre os irmãos Van Gogh inspirou o escritor americano Irving Stone (1903-1989) a escrever a primeira biografia do pintor, Sede de viver (1934).

O livro, por sua vez, deu origem ao filme homônimo do cineasta italiano Vincente Minnelli (1903-1986).

Em Sede de viver (1956), Van Gogh é interpretado por Kirk Douglas (1916-2020) e Paul Gauguin, por Anthony Quinn (1915-2001).

O filme, aliás, perpetua o mito, rejeitado por alguns historiadores, de que, para pintar à noite, Van Gogh colocava velas acesas na aba do seu chapéu ou no topo do cavalete. O pintor, esclarecem, usava lamparina. Simples assim.

A vida de Van Gogh já foi contada e recontada em livros, filmes e quadrinhos. No Brasil, foi citado em letra de música da Legião Urbana (Eduardo e Mônica, de 1986), inspirou conto de Moacyr Scliar (A orelha de Van Gogh, de 1989) e virou peça de teatro de Thelma Guedes (Van Gogh por Gauguin, 2019).

“Sua obra nos fascina, sua vida nos intriga e sua personalidade nos desconcerta”, observa Thelma Guedes.

“Em sua autobiografia, Gauguin narra uma passagem em que, num inverno rigoroso em Paris, Van Gogh, na penúria e com muita fome, teria conseguido vender um quadro por alguns vinténs. Mas, logo à frente, deu todo o dinheiro que tinha acabado de receber para uma mulher que lhe pediu esmola. Era um homem extremamente sensível, humano e generoso.”

  • André Bernardo –  BBC News Brasil

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