Aquisições realizadas durante o governo Lula buscam reforçar a capacidade de defesa terrestre do país diante de cenários estratégicos inspirados por conflitos internacionais e crises na América do Sul
O Exército Brasileiro destinou cerca de R$ 1,27 bilhão à aquisição de novos sistemas de mísseis anticarro e veículos blindados durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O objetivo, segundo a própria Força, é assegurar que “as forças terrestres estejam preparadas para enfrentar ameaças contemporâneas e futuras”.
As informações foram obtidas pela reportagem da Folha de S.Paulo por meio de um pedido baseado na Lei de Acesso à Informação (LAI).
Aquisição de mísseis amplia capacidade de dissuasão
Entre os investimentos realizados, destaca-se a compra de 220 mísseis anticarro em 2025, ao custo de R$ 153,8 milhões. O lote foi dividido entre dois sistemas distintos.

Um deles envolve 100 unidades do modelo Javelin FGM-148F, adquiridas a partir de um acordo firmado pela Comissão do Exército em Washington com o governo dos Estados Unidos. O segundo corresponde a 120 mísseis 1.2 AC Max, produzidos no Brasil por uma empresa sediada em São José dos Campos (SP).
Segundo o Exército, o principal objetivo da compra é fortalecer o poder de defesa das tropas terrestres. A instituição afirma que o equipamento representa um elemento importante para ampliar a capacidade estratégica do país.

“O objetivo é aprimorar a capacidade de dissuasão do Exército brasileiro. A obtenção de um armamento coletivo anticarro é crucial para fortalecer a linha de defesa em operações de combate terrestre”, informou a Força.
Conflitos internacionais influenciam estratégia militar
Ao justificar a necessidade do novo armamento, o Exército mencionou experiências recentes observadas em conflitos armados, especialmente a guerra entre Rússia e Ucrânia e os confrontos na Palestina.
“As recentes experiências observadas na guerra da Ucrânia têm demonstrado a importância de sistemas anticarros eficazes na defesa contra avanços blindados”, declarou a instituição.
Segundo a análise militar citada pela Força, o uso de armamentos portáteis teve papel relevante no conflito europeu. “As forças ucranianas, utilizando mísseis anticarro portáteis, conseguiram deter e neutralizar colunas blindadas, causando significativas baixas aos agressores.”
A instituição também citou os confrontos no território palestino como referência operacional. “Em conflitos na Palestina, a utilização de armamento anticarro tem sido uma tática eficaz para resistir a forças mecanizadas superiores, demonstrando a importância de tais armas para forças que operam em ambientes urbanos e irregulares.”
Frota de blindados também foi ampliada
Além dos sistemas de mísseis, o Exército adquiriu 163 veículos blindados entre 2023 e 2026, com investimento total de R$ 1,12 bilhão.
A maior parte das unidades corresponde ao VBTP MSR 6×6 Guarani, um blindado de transporte de tropas desenvolvido para operar em diferentes ambientes, inclusive em rios e áreas alagadas.
O veículo pesa cerca de 18 toneladas, pode alcançar 110 km/h e possui autonomia aproximada de 600 quilômetros, além de capacidade anfíbia.
A fabricação ocorre no Brasil, na unidade da IDV Brasil, localizada em Sete Lagoas (MG). Um contrato mais amplo prevê a aquisição de centenas de veículos até 2040, em um acordo estimado em R$ 7,5 bilhões.
Crise entre Venezuela e Guiana motivou decisões
Militares envolvidos nas discussões estratégicas apontam que o principal gatilho para acelerar o programa de aquisição de blindados foi a crise territorial entre Venezuela e Guiana, iniciada no fim de 2023.
Naquele momento, o governo de Nicolás Maduro passou a reivindicar o controle da região de Essequibo, área rica em recursos naturais pertencente à Guiana. O movimento gerou preocupação no Brasil, pois uma ofensiva venezuelana por terra poderia envolver a passagem de tropas pelo território brasileiro.
Órgãos de inteligência chegaram a considerar a possibilidade de uma invasão terrestre da Guiana por forças venezuelanas.
Diante do cenário, o Brasil mobilizou aviões militares, tropas, veículos blindados e mísseis para o estado de Roraima, região que faz fronteira com a Venezuela.
Segundo militares que participaram das discussões estratégicas, a percepção era de que o país precisava fortalecer suas capacidades terrestres, sobretudo diante da presença de blindados de origem russa no arsenal venezuelano.
Novo cenário geopolítico após intervenção americana
O quadro regional mudou significativamente no início deste ano. Nos primeiros dias de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou uma operação militar em Caracas que resultou na captura de Nicolás Maduro.
O líder venezuelano foi levado para Nova York, onde passou a responder a acusações relacionadas a tráfico de drogas.
A operação despertou preocupação no governo brasileiro sobre possíveis implicações geopolíticas para a América do Sul. O presidente Lula solicitou aos militares análises sobre eventuais vulnerabilidades do Brasil diante de intervenções externas semelhantes.
Durante visita do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, a Brasília, Lula expressou publicamente essa preocupação. “Aqui, na América do Sul, nós nos colocamos como uma região de paz, aqui ninguém tem bomba nuclear”, afirmou. “Não sei se o companheiro Ramaphosa percebe que se a gente não se preparar em questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente.”
Exército mantém sigilo sobre distribuição dos armamentos
No pedido realizado via Lei de Acesso à Informação, a reportagem solicitou detalhes sobre a distribuição geográfica dos equipamentos adquiridos, incluindo unidades militares e estados de destino.
O Exército recusou divulgar os dados, alegando que a divulgação poderia comprometer a segurança nacional. “A solicitação busca informações de defesa nacional, comprometendo a proteção que se deve garantir ao sigilo de Estado”, afirmou a instituição.
Segundo a resposta oficial, a exposição dessas informações poderia colocar em risco a soberania nacional e prejudicar operações estratégicas das Forças Armadas.
Apesar disso, o próprio Exército já informou publicamente que parte do material foi direcionada a unidades em Roraima e à 1ª Companhia Anticarro Mecanizada, em Osasco (SP). Testes com mísseis também foram realizados no Rio de Janeiro, enquanto brigadas militares no Paraná receberam novos blindados.
Indústria nacional participa do programa militar
Parte dos sistemas adquiridos envolve produção nacional de tecnologia militar.
O míssil 1.2 AC Max, fabricado pela empresa SIATT Engenharia, Indústria e Comércio, possui alcance médio e opera por meio de um sistema guiado por laser codificado, que mantém o projétil alinhado à mira durante o trajeto.
A unidade é composta por dois elementos principais: a munição e o sistema de disparo, responsável por emitir o feixe de orientação que conduz o míssil até o alvo.
Os contratos para fornecimento desse armamento foram firmados entre 2019 e 2025, reforçando a participação da indústria brasileira no desenvolvimento de equipamentos estratégicos para a defesa nacional.



