Decisão coordenada pela Agência Internacional de Energia busca reduzir pressão sobre o mercado global após escalada da guerra no Oriente Médio e interrupções no fluxo de petróleo
A Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou a liberação de 400 milhões de barris de petróleo provenientes das reservas emergenciais mantidas por países industrializados, na maior intervenção desse tipo já realizada. A iniciativa ocorre em meio ao aumento abrupto dos preços da energia provocado pela intensificação do conflito no Oriente Médio e pelas interrupções no fluxo de petróleo na região.
A decisão foi aprovada por unanimidade entre os membros da entidade, que coordena os estoques estratégicos das economias avançadas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O volume liberado supera amplamente intervenções anteriores — incluindo os 182 milhões de barris disponibilizados em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
“Os desafios que estamos enfrentando no mercado de petróleo são sem precedentes em escala”, afirmou em comunicado divulgado nesta quarta-feira o diretor-executivo da AIE, Fatih Birol. “Os países-membros da IEA responderam com uma ação coletiva de emergência de tamanho sem precedentes.”
Embora tenha confirmado o volume total a ser liberado, Birol não detalhou o ritmo com que os barris serão disponibilizados ao mercado.
Guerra no Oriente Médio pressiona preços globais
A medida ocorre em um momento de forte volatilidade no mercado energético. A escalada das tensões no Oriente Médio provocou interrupções nos fluxos de petróleo que passam pelo Estreito de Ormuz, corredor marítimo crucial para o comércio global de energia.
Na segunda-feira, a cotação do petróleo em Londres chegou a se aproximar de US$ 120 por barril, refletindo o temor de escassez no fornecimento. Nos dias seguintes, os preços recuaram parcialmente diante da expectativa de que governos recorreriam às reservas estratégicas para estabilizar o mercado.
Mesmo assim, o mercado segue volátil. Por volta das 11h40 desta quarta-feira, o Brent — referência internacional — era negociado a US$ 89,71 por barril, com alta de 2,18%, enquanto o petróleo americano WTI subia 1,97%, cotado a US$ 85,09.
G7 discute medidas para estabilizar o mercado
A liberação coordenada de estoques também foi tema de discussões entre os líderes do Grupo dos Sete (G-7). Mais cedo, o ministro das Finanças da França, Roland Lescure, informou que o bloco avalia uma série de ações para conter a volatilidade do mercado energético.
Os países do grupo declararam apoiar, em princípio, “medidas proativas”, entre elas o uso de reservas estratégicas, embora sem detalhar inicialmente o alcance da intervenção.
Alemanha confirma participação e limita reajustes de combustíveis
Entre os primeiros países a confirmar adesão à iniciativa está a Alemanha. Após reunião de gabinete nesta quarta-feira, a ministra da Economia, Katherina Reiche, afirmou que o governo alemão atenderá ao pedido da AIE.
— Cumpriremos esse pedido e daremos nossa contribuição.
Além da liberação de petróleo das reservas estratégicas, o governo do chanceler Friedrich Merz anunciou uma medida adicional para conter oscilações nos preços ao consumidor. Segundo Reiche, os postos de combustíveis no país passarão a ter restrições na frequência de reajustes.
De acordo com a ministra, os estabelecimentos “só poderão aumentar os preços do combustível uma vez por dia. Reduções de preços, por outro lado, serão permitidas a qualquer momento”.
Japão também recorrerá às reservas nacionais
O Japão também anunciou que recorrerá a seus estoques estratégicos de petróleo. A primeira-ministra Sanae Takaichi declarou que o país pretende iniciar a liberação já na próxima semana, sem aguardar uma decisão formal de coordenação da AIE.
Segundo ela, a operação poderá começar já na segunda-feira e envolverá parte das reservas mantidas pelo setor privado e pelo governo.
A medida equivalerá à retirada de 15 dias de estoques privados e cerca de um mês das reservas estatais. A decisão reflete a forte dependência energética do país asiático: mais de 90% do petróleo consumido no Japão é importado do Oriente Médio, grande parte transportada pelo Estreito de Ormuz.
Atualmente, os estoques estratégicos japoneses — públicos e privados — correspondem a 254 dias de consumo nacional de petróleo e derivados.
Reservas globais superam 1,8 bilhão de barris
Segundo a AIE, os 32 países membros mantêm aproximadamente 1,2 bilhão de barris em estoques públicos de emergência. A maior dessas reservas pertence aos Estados Unidos, por meio da Reserva Estratégica de Petróleo (SPR).
Além disso, cerca de 600 milhões de barris adicionais são mantidos pela indústria sob exigências governamentais, o que eleva significativamente a capacidade de resposta em situações de crise.
Redução da oferta agrava desequilíbrio no mercado
Enquanto os consumidores recorrem às reservas estratégicas, importantes produtores de petróleo ampliam cortes na oferta. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Iraque estão entre os países que reduziram o volume exportado, contribuindo para uma queda estimada de 6% na produção global.
A situação foi agravada pelas interrupções no transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz, o que levou ao acúmulo de petróleo em instalações de armazenamento na região.
Nos Emirados Árabes Unidos, a maior refinaria do país — Ruwais Refinery — teve suas operações suspensas temporariamente na terça-feira após um ataque de drone nas proximidades.
Analistas veem dificuldade em compensar perda de oferta
Apesar da mobilização das reservas estratégicas, parte do mercado avalia que a medida pode não ser suficiente para compensar totalmente a perda de fornecimento da região do Golfo.
Analistas estimam que a interrupção das exportações pode retirar entre 11 milhões e 16 milhões de barris por dia do mercado global — volume muito superior à capacidade imediata de liberação das reservas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a retirada máxima da Reserva Estratégica é de 4,4 milhões de barris por dia, segundo dados do Departamento de Energia. Mesmo após a decisão presidencial, o petróleo leva cerca de 13 dias para chegar efetivamente ao mercado.
Histórico de intervenções emergenciais
Desde sua criação, a Agência Internacional de Energia coordenou cinco grandes liberações de reservas estratégicas. Entre elas estão intervenções realizadas durante a preparação para a Guerra do Golfo em 1991, após os furacões Katrina e Rita em 2005 e durante a guerra civil na Líbia em 2011.
Mais recentemente, a entidade mobilizou estoques duas vezes em 2022, em resposta às interrupções no fornecimento global provocadas pela guerra na Ucrânia.
Com a nova decisão, a AIE realiza a maior intervenção coordenada já registrada no mercado internacional de petróleo, em uma tentativa de conter os impactos econômicos de mais uma crise geopolítica sobre o sistema energético global.



