Algumas lembranças chegam mansas.
Não batem à porta.
Entram devagar, como quem pede licença ao tempo.
Esta é uma delas.
Uma história puxada do fundo da memória e também das páginas do meu livro Uma Vida, Uma História, onde a vida se deixou contar sem pressa, do jeito que foi vivida.
Dias desses, numa conversa despretensiosa com meu cunhado Winston, falávamos justamente disso:
de trechos do livro, de passagens que ficaram ali, guardadas, talvez esperando outro momento para respirar de novo.
Entre um comentário e outro, voltamos ao episódio de um sábado de Aleluia vivido em Marialva, na casa do meu cunhado Erlik.Percebi então que algumas histórias não se esgotam quando são escritas.
Elas apenas descansam.
E, quando provocadas por uma boa conversa, pedem para ser contadas outra vez, sob outra luz.
1974 foi um desses anos que ficaram guardados com cheiro de estrada e poeira boa.
Foi quando comprei meu primeiro carro. Um Fusca azul-claro, ano 71.
Nada de luxo.
Tudo de liberdade.
Levei meu cunhado Stalin para ajudar na escolha.
Naquele tempo, Goiânia tinha poucas garagens, e fomos a uma delas, ali no cruzamento da Rua Seis com a Cinco.
Saí de lá dirigindo como quem acabara de ganhar asas.
Era um carro pequeno, mas cabia o mundo inteiro dentro dele.
Com aquele Fusca, fomos muitas vezes a Piranhas, para a casa do meu cunhado Erlik.
Lugar de portas abertas, risos largos e mesa farta.
Ali, a família da Itacira se reunia.
Natal, feriado prolongado, qualquer desculpa virava encontro.
E encontro, ali, virava memória.
Numa dessas idas, fomos para um casamento em Bom Jardim de Goiás, a 35 quilômetros de estrada de terra.
O Fusca virou quase um micro-ônibus.
Doze pessoas dentro.
Doze.
Espremidas, rindo, sacolejando, acreditando que aquilo daria certo.
E deu.
Tem coisas que só dão certo porque ninguém pensa demais.
Mas foi num feriadão da Semana Santa que aconteceu o episódio mais saboroso, em todos os sentidos.
E talvez o mais contado, o mais rido, o mais lembrado.
Essas histórias que acabam virando capítulo de livro e assunto de mesa por muitos anos.
Havia um costume antigo, herdado sabe-se lá de quais antepassados:
no sábado de Aleluia, o almoço precisava ter farofa de galinha caipira.
Só que havia uma regra curiosa.
A galinha não podia ser comprada, nem ganha.
Precisava vir do quintal do vizinho.
Surrupiada.
Roubada, diriam os mais modernos.
Tradição é tradição.
Reuniram-se para a empreitada Stalin, Weligton, o primo Antônio, o Erlik e eu.
Escolheu-se o quintal do Osmar, irmão da Iêda.
Distava uns três quilômetros.
E naquele dia, todos os fazendeiros estavam mais atentos que o normal.
À noite, seguimos para a fazenda.
Plano simples.
Disfarce melhor ainda.
Enquanto Erlik ia até o poleiro cumprir a missão, o restante de nós sentou-se à mesa com o Osmar para jogar truco.
Na antiga casa, a luz de lamparina, o tempo pediu licença e sentou à mesa conosco.
Não havia pressa.
Havia conversa, riso baixo e barulho de mãos batendo na mesa.
A casa escutava.
O quintal guardava segredos.
E ninguém desconfiava que aquela noite estava virando memória.
Quem conhece o jogo sabe:
truco não se joga apenas com cartas.
Joga-se com voz.
Com barulho.
Com coragem fingida.
No meio da partida, os cachorros começaram a latir.
O Osmar se levantou, desconfiado.
Foi quando Stalin, rápido como quem conhece a vida, trucou alto.
Gritou.
Bateu na mesa.
Fez do barulho um escudo.
Os cachorros se calaram.
Pouco depois, percebemos que o serviço estava feito.
Era hora de ir.
Precisávamos de um motivo.
E Stalin, mais uma vez, resolveu tudo com uma discussão fingida com o parceiro de jogo.
Diante do desentendimento, levantamos, nos despedimos e fomos embora.
No carro, Erlik nos esperava.
Com duas galinhas.
Na manhã seguinte, fizemos o que talvez desse mais sabor à história.
Convidamos o Osmar para o almoço.
Ele veio.
Comeu.
Repetiu.
E comentou, seguro de si, que ninguém roubava galinhas de seu terreiro.
Foi então que revelamos:
a farofa daquele sábado de Aleluia tinha vindo, exatamente, do quintal dele.
Rimos.
Ele riu.
A história ficou.
Talvez não seja uma grande façanha.
Talvez nem tenha muita graça para quem lê de fora.
Mas quem viveu sabe.
São essas pequenas travessuras, esses pactos silenciosos de família, que viram herança.
Não de dinheiro.
Mas de memória.
E memória, quando bem vivida, merece ser escrita.
À mesa, o tempo descansou.
O resto virou lembrança.




