Os primeiros efeitos colaterais da insana guerra que Estados Unidos e Israel deflagraram ao invadirem o Irã já começam a surgir nas exportações brasileiras de carne de frango, açúcar e milho. Esses são os produtos que o país mais exporta para os 14 países do Oriente Médio e que foram interrompidas após o início do conflito bélico.
O segundo efeito aparece no aumento dos fretes marítimos que triplicaram desde o início do conflito, com a obstrução das rotas convencionais do Golfo Pérsico que passam pelo Estreito de Ormuz, bloqueado pelo Irã.
Em 2025, segundo dados da balança comercial, do total de US$ 16,125 bilhões exportados para os 14 países do Oriente Médio, carnes de frango, milho e açúcar somaram US$ 7,767 bilhões.
Os produtores de açúcar e milho já procuram mercados alterativos para realocar suas vendas, mas a indústria de carne de frangos tem mais dificuldade. O Oriente Médio é um grande consumidor dos cortes de frangos do Brasil, comprando 25% das nossas exportações. A indústria nacional especializou-se na produção do frango halal, que é abatido segundo as leis islâmicas. Parte considerável das fábricas foi montada no Brasil e no exterior de forma a produzir especificamente esse tipo de corte.
Outro impacto que os consumidores brasileiros já começaram a sofrer na semana passada foi a alta de combustíveis em algumas regiões abastecidas por refinarias privadas. O preço do barril de petróleo tipo Brent, referência mundial, subiu de US$ 60 para US$ 90. A despeito de a Petrobras ainda não ter repassado para os preços finais o brusco aumento do preço do barril no mercado internacional, algumas refinarias privadas já começaram a aumentar os seus preços às distribuidoras, gerando alta nos preços ao consumidor final de gasolina e óleo diesel.
Outro aspecto que exige atenção é o fornecimento de uréia e cloreto de potássio, fertilizantes utilizados na agropecuária brasileira. Boa parte desses insumos é importada de países do Oriente Médio. No horizonte imediato não há problema, pois já foram adquiridos os insumos necessários para a safra atual. A médio prazo, no entanto, as importações serão afetadas em quantidade e preço, podendo aumentar os custos de produção da produção agrícola nacional. A substituição de fornecedor não será tão simples. Outros países que forneciam aos produtores nacionais, Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia, também deixaram de fornecer após a Rússia invadir a Ucrânia e promover uma guerra de ocupação e usurpação territorial.
Outro efeito colateral sentido na economia mundial e brasileira é chamado “custo-Trump”.
Após causar turbulências na economia global com o aumento estratosférico das tarifas comerciais a todos os países e promover outra onda de choque comercial com a operação militar que capturou o ditador venezuelano Nicolás Maduro, o presidente americano invadiu o Irã, causando nova hecatombe na economia mundial.
Os efeitos negativos incluem desaceleração da economia mundial, aumento dos custos de transportes do comércio internacional, alta da inflação em razão dos custos logísticos, elevação dos preços do petróleo, juros maiores nas economias mundo afora e adiamento de investimentos produtivos em países desenvolvidos e emergentes.
As movimentações comerciais e bélicas do presidente Trump promovem aumento dos custos logísticos, dos preços do petróleo e das transações comerciais. Como consequência, pressionam a inflação, forçando os bancos centrais do mundo todo a manter a taxa de juros em patamares altos para conter a alta inflacionária.
Na condição de grande produtor e exportador de petróleo, o Brasil beneficia-se, em curto prazo, do aumento de preço da commodity. Com a impossibilidade dos produtores do Oriente Médio de exportarem petróleo, a Petrobras deve aumentar suas exportações. A entrada de dólares ajuda a amortizar os impactos inflacionários imediatos. Mas, a médio prazo, esse aumento será repassado aos preços de combustíveis que pressionarão a inflação. A pressão sobre a inflação pode levar o Banco Central a retardar o ciclo de redução da taxa de juros ou implementá-la em nível mais tímido que o esperado para este ano.
Ao menosprezar as instituições internacionais de governança e ignorar completamente o direito internacional, o presidente americano força uma desordem geopolítica mundial parecida com a que existia ao final do século XIX, quando o mundo assistiu aos últimos suspiros do colonialismo europeu e a ascensão dos Estados Unidos, que resultou em duas grandes guerras mundiais. Exatamente o que mundo precisa evitar neste crítico momento civilizatório.




