Pesquisa científica revela faltas de informação entre homens acima de 50 anos e alerta para riscos de lesão renal
Prevalência da condição, sintomas característicos e o impacto do estigma
Um estudo publicado no periódico científico Neurourology Urodynamics revelou que mais de 50% dos homens com idade igual ou superior a 50 anos não possuem conhecimento adequado acerca da hiperplasia prostática benigna. A sondagem, realizada na China a partir da análise de 444 questionários — dos quais 191 foram respondidos por indivíduos na faixa etária de 60 a 69 anos —, acendeu um sinal de alerta entre os profissionais da saúde masculina. A patologia, caracterizada pelo aumento não canceroso da glândula prostática, apresenta elevada incidência no processo de envelhecimento, contudo, a falta de informação posterga a busca por tratamento, gerando desdobramentos clínicos severos.
O quadro manifesta-se por meio de alterações no fluxo urinário, incluindo hesitação no início da micção, jato enfraquecido ou intermitente, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, aumento da frequência urinária diurna, necessidade de se levantar rotineiramente à noite para urinar (noctúria) e urgência miccional. Em estágios mais acentuados, pode ocorrer a perda involuntária de urina.
A identificação precoce das manifestações clínicas previne que os pacientes atribuam as mudanças unicamente ao envelhecimento natural. Além disso, o acesso à informação contribui para desmistificar o preconceito social em torno dos problemas urinários. “A hiperplasia prostática benigna acomete cerca de metade dos homens acima de 50 anos e quase 90% daqueles com mais de 80 anos”, destaca o urologista Marcelo Wroclawski, coordenador da área de Hiperplasia Prostática Benigna do departamento de Disfunção Miccional da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
As barreiras de acesso aos serviços médicos agravam a procrastinação na busca por suporte especializado. “Esse estudo confirma o que vemos na prática médica no dia a dia: por ignorância, vergonha ou mesmo por dificuldades de atendimento, muitos procuram ajuda quando o caso já está mais avançado e pode apresentar consequências mais sérias”, afirma o urologista Gustavo Caserta Lemos, do Einstein Hospital Israelita.
Fisiopatologia do crescimento prostático e complicações no trato urinário
A alteração anatômica ocorre devido ao desenvolvimento volumétrico da próstata na zona periuretral, canal encarregado de conduzir a urina. À medida que o tecido prostático se expande, a uretra sofre compressão, criando uma resistência ao fluxo e exigindo um esforço compensatório maior da musculatura vesical para expelir o líquido.
A sobrecarga contínua modifica a estrutura tecidual da bexiga. Com o progredir da obstrução, o tecido elástico do órgão é gradualmente substituído por fibras colágenas, enrijecendo a parede vesical e reduzindo sua funcionalidade. Paralelamente, podem se formar divertículos — pequenas herniações na parede muscular —, que favorecem a estase urinária e a formação de cálculos na bexiga.
Em fases avançadas, a bexiga perde a capacidade de esvaziamento completo, acumulando volume residual pós-miccional elevado. Essa retenção crônica pode evoluir para a obstrução urinária aguda. Como os rins mantêm a produção contínua de urina sem a devida drenagem, a pressão retrógrada pode provocar a dilatação dos ureteres e dos rins (hidronefrose), comprometendo a função renal de forma irreversível.
Diferenciação clínica em relação ao câncer e diretrizes de rastreamento
O crescimento benigno da próstata possui etiologia e comportamento distintos do adenocarcinoma prostático. Na hiperplasia, a proliferação celular ocorre prioritariamente na região central da glândula, provocando sintomas compressivos precoces. Em contrapartida, o câncer de próstata desenvolve-se predominantemente na zona periférica e, em suas etapas iniciais, costuma ser assintomático. “Por esse motivo, é fundamental o rastreamento periódico, mesmo sem queixas, que possibilita diagnóstico precoce, maior chance de cura e melhores resultados funcionais, como preservação da continência urinária e da ereção”, pontua Marcelo Wroclawski.
A recomendação médica estabelece que homens a partir dos 45 anos realizem consultas urológicas preventivas anuais, ainda que assintomáticos. “O crescimento benigno da próstata começa por volta dos 40 anos, sendo que, em alguns pacientes, o ritmo de crescimento é bastante lento e talvez eles nunca precisem ser tratados. Em outros, o crescimento é mediano e essas pessoas só vão ter problemas a partir da sexta década de vida, e uma minoria tem um crescimento bastante rápido e pode ter problemas a partir da quinta década, por isso é importante o acompanhamento”, frisa Gustavo Caserta Lemos.
Embora alguns casos apresentem sintomas moderados, o impacto no cotidiano costuma ser expressivo. A busca constante por banheiros induz alterações comportamentais prejudiciais. “Muitos acabam reduzindo a ingestão de líquidos ou evitam sair de casa, por exemplo. Dessa forma, há impacto relevante na qualidade de vida, com prejuízo do sono, limitações sociais e efeitos na esfera sexual”, destaca o médico da SBU.
Avanços terapêuticos, métodos cirúrgicos e a importância do diagnóstico precoce
O manejo da hiperplasia prostática benigna varia conforme a gravidade dos sintomas e o volume glandular, abrangendo desde a farmacoterapia até abordagens cirúrgicas. “Dentre as medicações, destaca-se a silodosina, que foi recém-lançada no Brasil e tem como objetivo relaxar a musculatura da próstata e do colo vesical. Com isso, a substância melhora o fluxo de urina, tornando a micção mais eficiente”, conta Marcelo Wroclawski.
No campo das intervenções minimamente invasivas via transuretral, destacam-se a termoterapia por vapor de água, a implantação de dispositivos de sustentação prostática e o uso de stents temporários. Muitas dessas alternativas podem ser executadas em regime ambulatorial, apresentando como diferencial a preservação da função ejaculatória.
Para próstatas de grande volume em que a cirurgia convencional é indicada, as vias de acesso incluem a cirurgia aberta e a plataforma robótica. Em ambos os métodos, o cirurgião acessa a cavidade abdominal, incisa a bexiga e realiza a enucleação do adenoma prostático. A via robótica oferece menor invasividade em comparação com a via aberta, contudo, permanece mais invasiva do que as abordagens endoscópicas.
“Temos à disposição diversas técnicas para tratar o quadro via uretra. A mais antiga e consagrada é a chamada ressecção transuretral (RTU) da próstata, que consiste na retirada em fatias da parte central da glândula por corte elétrico ou a plasma. O laser é uma tecnologia mais moderna, mas os resultados ainda não são tão bons quanto os do procedimento tradicional. Assim como muitas outras opções de tratamentos que foram criadas, o laser ainda precisa passar pelo crivo do tempo, do uso em maior quantidade de pacientes e dos urologistas”, explica o médico do Einstein.
A negligência no acompanhamento do crescimento prostático resulta em danos definitivos à musculatura da bexiga. “Quando o tratamento é feito tardiamente, não importa por qual técnica, os resultados não são tão bons porque a bexiga já não responde bem à desobstrução. Por isso, quanto mais cedo o paciente procurar ajuda médica, melhor”, opina Gustavo Caserta Lemos.
(Fonte: Agência Einstein e Redação.K)




