A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (10), operação integrada ao inquérito sobre suspeitas de desvio de emendas parlamentares. A autorização do ministro Flávio Dino para a realização das diligências aponta um esquema de repasses que teria direcionado recursos públicos, originados em diferentes unidades da Federação, a empresas e organizações associadas a Karina Gama, identificada nas investigações como proprietária da produtora vinculada ao filme Dark Horse. As irregularidades são objeto de apuração e não há, nesta etapa, declaração de culpabilidade dos envolvidos.
Emendas de Pollon e Kicis para projeto em São Paulo
Entre os repasses sob exame, a decisão destaca uma emenda individual de R$ 1 milhão apresentada pelo deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) e outra de R$ 150 mil de autoria da deputada federal Bia Kicis (PL-DF). Ambas teriam beneficiado a Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade presidida por Karina Gama, para o desenvolvimento do projeto “Heróis Nacionais”, em São Paulo. A destinação chama atenção das autoridades porque os parlamentares foram eleitos, respectivamente, pelo Mato Grosso do Sul e pelo Distrito Federal, enquanto o objeto financiado está localizado em outro estado.
Para o ministro, essa divergência geográfica “revela aparente desconformidade” com a exigência de vinculação federativa adotada em decisões anteriores do inquérito. A avaliação judicial serve como fundamento para aprofundar a análise da legalidade e da execução dos contratos, mas não equivale a sentença. Caberá às investigações verificar a natureza dos convênios, a prestação de contas, a efetiva execução do objeto e eventual intermediação entre os beneficiários finais.
Rede de empresas e questionamentos sobre execução
O inquérito conduzido no âmbito da Polícia Federal examina trajetos financeiros considerados complexos e a existência de vínculos societários entre pessoas jurídicas beneficiadas. A decisão que permitiu a operação indica que parte expressiva dos valores percorreu diferentes empresas e organizações relacionadas a Karina Gama. As autoridades investigam se a estrutura foi criada ou utilizada para atender a contratos previamente firmados e se os recursos chegaram aos fins previstos nas emendas.
A apuração também busca estabelecer a autonomia das entidades contratadas, a capacidade operacional para executar os projetos e a correspondência entre os pagamentos realizados e os serviços efetivamente prestados. A menção a vínculos considerados suspeitos no texto judicial permanece uma hipótese investigativa. Empresas e agentes citados poderão apresentar documentos, justificativas e comprovação de regularidade, preservando-se o contraditório e a presunção de inocência.
Repasses atribuídos a Mario Frias
Outro ponto destacado nas diligências envolve emenda parlamentar individual atribuída ao deputado federal Mario Frias, que comandou a Secretaria Especial da Cultura durante o governo de Jair Bolsonaro. A Editora e Distribuidora de Livros HD Cultural aparece como beneficiária de repasse de R$ 1.368.528,20 efetuado em 24 de março de 2026 pelo Fundo Municipal de Saúde de Piracicaba, em São Paulo. O mesmo documento registra pagamento de R$ 1.298.694,38 em 30 de dezembro de 2025, com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), tendo como pagador o Fundo Municipal de Educação de Icó, no Ceará.
O conjunto de informações reunido pela PF indica, portanto, um fluxo que conecta autorizações parlamentares no Distrito Federal, no Mato Grosso do Sul e no Ceará a beneficiários e projetos concentrados em São Paulo. A investigação deverá esclarecer se essa distribuição territorial contraria regras específicas das emendas ou se há justificativa jurídica e administrativa para os repasses. O resultado das diligências poderá subsidiar pedidos adicionais ao Judiciário, inclusive sobre a responsabilização civil, administrativa ou penal de envolvidos, caso sejam encontradas evidências de fraude.




