A gente passa a vida ouvindo falar em desapego.
Desapego disso, desapego daquilo… palavras que chegam até nós como conselhos antigos, desses que a gente respeita, até concorda, mas deixa para depois.
Porque desapegar, no fundo, não é fácil. Não é só largar coisas. É mexer dentro da gente.
E a gente vai empurrando.
Até que, um dia, sem aviso, a vida resolve cobrar.
Foi num gesto simples que isso me encontrou. Fui fechar a gaveta da estante onde apoio o computador, mas ela não fechava. Pesada. Teimosa. Como se dissesse: “tem coisa demais aqui dentro”.
Abri.
E lá estavam eles: exames, muitos exames. Papéis de outras épocas. Laudos, radiografias, ultrassons, envelopes já amarelados.
Um arquivo silencioso de momentos em que o corpo pediu cuidado e a alma respondeu com preocupação.
Fiquei olhando.
Algumas datas já não me diziam nada. Certos diagnósticos tinham perdido a força.
Medos que, um dia, foram grandes, hoje não passavam de lembrança apagada. E, mesmo assim, tudo estava ali, guardado com um zelo que eu já nem sabia explicar.
Foi quando me veio uma pergunta simples, dessas que chegam devagar, mas não vão embora.
Para que guardar isso?
Para que carregar provas de dores que já passaram? De incertezas que o tempo resolveu sem pedir licença?
Percebi, ali, que não eram só papéis. Era um apego quieto, quase escondido, ao que já tinha ficado para trás.
Resolvi esvaziar a gaveta.
Pegava um papel, olhava rápido, reconhecia o momento… e rasgava.
No começo, confesso, deu uma hesitação. Aquela sensação de estar jogando fora algo que “poderia ser importante”.
Mas, pouco a pouco, isso foi mudando.
A cada folha que se partia, algo dentro de mim também se soltava. Não era só papel. Eram preocupações antigas, medos vencidos, capítulos já encerrados. Era como se eu estivesse dizendo, finalmente: “já passou… pode descansar”.
Quando vi, o monte tinha sumido.
A gaveta, antes pesada, agora deslizava leve, quase silenciosa. Como se também tivesse sido aliviada.
E isso me fez lembrar de outro tempo, lá na chácara de Claudinápolis. Naquela época, o gesto foi mais forte: fiz uma pequena fogueira e queimei papéis que já não faziam mais sentido. Lembro do fogo consumindo tudo, levando embora não só a tinta, mas o peso que vinha junto.
Dessa vez não teve fogo.
Só o gesto simples de rasgar.
Mas o efeito… foi o mesmo.
Um alívio manso. Uma sensação de espaço aberto. Como se, por dentro, alguma coisa também tivesse sido arrumada.
A gente acumula demais na vida. Não só coisas. Guarda lembranças, medos, dores, preocupações que já perderam a utilidade. E vai deixando tudo ali, como se isso trouxesse segurança.
Mas não traz.
Ocupa. Pesa. Prende.
Talvez desapegar não seja perder. Talvez seja entender. Entender que certas coisas já cumpriram o seu papel, e que, por isso mesmo, merecem ser deixadas ir.
Fechei a gaveta.
Dessa vez, ela se fechou fácil. Sem esforço. Como se estivesse em paz.
Fiquei ali, quieto, por alguns instantes.
E percebi: não era só a gaveta que tinha ficado leve.
Era eu.




