Oposição celebra queda do ditador, mas reage com cautela às declarações do presidente americano e à transição conduzida sob tutela de Washington
Euforia contida e desconfiança nos bastidores
A decisão de se associar a um aliado tão volátil quanto Donald Trump revelou rapidamente seus custos políticos para a oposição venezuelana. Entre dirigentes ligados ao entorno de María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, e representantes da sociedade civil, a captura do ditador Nicolás Maduro provocou mais inquietação do que alívio duradouro. O sentimento predominante, segundo relatos reservados, é de desconforto com os rumos imprevisíveis do processo aberto pela intervenção americana.
No círculo mais próximo da oposição, que manteve negociações com a Casa Branca e chegou a elogiar publicamente Trump, há comemoração pela chamada “extração cirúrgica” do sucessor de Hugo Chávez. Ainda assim, líderes admitem incômodo com as declarações recentes do presidente dos EUA e reconhecem que o cenário político permanece envolto em incertezas.
Declarações de Trump geram desgaste político
O mal-estar se aprofundou após Trump afirmar, em Mar-a-Lago, que María Corina é “uma mulher muito legal”, mas careceria do respeito necessário para liderar o país. A fala atingiu diretamente a principal figura da oposição, que, impedida de disputar a Presidência, apoiou Edmundo González, reconhecido por aliados como o verdadeiro vencedor do pleito marcado por denúncias de fraude. Em gesto simbólico, ela chegou a dedicar seu Nobel a Trump.
Um ex-diplomata ligado à oposição avalia, porém, que a ausência de respaldo explícito do presidente americano pode fortalecer María Corina internamente. Sem o selo de Washington, diz ele, a líder evita o rótulo de “candidata dos EUA” e preserva a imagem de representante legítima da vontade popular.
Transição sob tutela e impasse constitucional
Enquanto isso, María Corina permanece em local não revelado na Europa, após deixar a Venezuela no mês passado. Paralelamente, Washington endossou a nomeação de Delcy Rodríguez como presidente interina, inaugurando uma transição tutelada. Figura associada à ala mais dura do chavismo, Delcy foi empossada nesta segunda-feira (5), apesar de questionamentos dentro e fora do país.
O ponto central do debate agora é quando —e se— haverá novas eleições. Setores opositores passaram a recorrer à Constituição venezuelana, reformulada no início da era Chávez, que prevê dois cenários para a ausência do presidente. Em casos de “ausência absoluta”, como morte, incapacidade ou destituição, o texto determina a convocação de eleições em até 30 dias, prazo já descartado por Trump.
Ausência temporária e brecha jurídica
Há, contudo, a figura da “ausência temporária”, cujos contornos não são detalhados. Nessa hipótese, o vice-presidente assume por até 90 dias, prorrogáveis por igual período, totalizando seis meses, ao fim dos quais deveriam ocorrer eleições. A captura de um chefe de Estado por forças estrangeiras não está prevista no ordenamento, o que amplia a insegurança jurídica.
O Supremo Tribunal de Justiça, dominado pelo chavismo e responsável por validar a eleição contestada de Maduro, enquadrou o caso como ausência temporária, legitimando Delcy Rodríguez no cargo. Com base nisso, opositores começam a articular a tese de que eleições deveriam ser obrigatoriamente realizadas em até seis meses, como forma de fazer valer a Constituição e restaurar a democracia.
Pressão internacional e temor de represálias
Para sustentar essa estratégia, líderes opositores defendem a mobilização de aliados externos, como a União Europeia e países da América Latina, entre eles Argentina e Bolívia, a fim de pressionar Washington a transferir o poder à oposição, e não a uma continuidade do chavismo sob nova liderança.
As articulações ocorrem majoritariamente sob anonimato. Parte dos envolvidos teme comprometer o diálogo com os EUA; outros receiam a reação do aparato repressivo que, apesar da captura de Maduro, segue intacto. O núcleo duro do regime permanece no poder, incluindo o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, apontado como responsável pela falha em proteger o território durante a ação americana.
Presos políticos e cobrança por anistia
Nesse ambiente de tensão, cresce a pressão pela libertação de mais de 860 presos políticos. Para aliados de María Corina, uma anistia ampla e irrestrita seria o principal sinal de mudança real. Entre os detidos estão o genro de Edmundo González, preso enquanto levava os filhos à escola; a ativista Rocío San Miguel, especialista em assuntos militares; e o ex-candidato presidencial Enrique Márquez. O levantamento inclui ainda 176 militares encarcerados por divergirem da linha repressiva do regime.
“A frustração de hoje é a mesma de antes da captura de Maduro”, afirma Alfredo Romero, diretor da ONG Foro Penal, que presta assistência jurídica gratuita a vítimas da repressão chavista. A declaração sintetiza o sentimento de uma oposição que, apesar da queda do ditador, ainda não enxerga garantias de uma transição democrática efetiva.



