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Crise Diplomática: PF reage a decisão dos EUA e suspende acesso de agente americano a sistemas no Brasil

Jeverson
22/04/2026, 16:33
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Crise Diplomática: PF reage a decisão dos EUA e suspende acesso de agente americano a sistemas no Brasil
Andrei Rodrigues, chefe da Polícia Federal, defende reciprocidade após ação do governo americano. © José Cruz/Agência Brasil

Medida ocorre após governo Trump determinar retirada de delegado brasileiro em atuação em Miami; Polícia Federal cobra esclarecimentos formais e classifica justificativa como “risível”

Retaliação institucional e suspensão de acesso

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, anunciou nesta quarta-feira (22) a suspensão das credenciais de um agente de imigração dos Estados Unidos que atuava em cooperação com a corporação no Brasil. A decisão foi adotada como resposta direta à determinação do governo do então presidente Donald Trump de afastar um policial federal brasileiro que exercia funções no sistema migratório norte-americano.

Segundo Rodrigues, a restrição ao acesso às bases de dados da PF permanecerá em vigor até que as autoridades dos EUA apresentem explicações formais sobre os motivos que levaram à medida contra o agente brasileiro. “Esse policial norte-americano, que até então trabalhava dentro de uma unidade nossa da PF, deixa de ter acesso a algumas bases de dados que nós fornecemos para essas cooperações, assim como nosso servidor lá em Miami teve”, afirmou em entrevista à Globonews.

Delegado brasileiro é retirado e retorna ao país

O agente brasileiro envolvido no episódio é o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação em Miami. De acordo com o diretor-geral da PF, o policial teve seu acesso ao sistema negado ao se apresentar para o trabalho, o que motivou a decisão de determinar seu retorno imediato ao Brasil.

“Ao chegar ao trabalho, o policial brasileiro teve a credencial de acesso ao sistema negado. Portanto, entendi que seria mais prudente mandar ele voltar ao Brasil”, declarou Rodrigues, acrescentando que, até o momento, não houve qualquer comunicação oficial por parte das autoridades americanas.

Contestação à versão dos EUA

O governo norte-americano teria alegado que o delegado brasileiro atuou de forma irregular no sistema de imigração, com o objetivo de manipular procedimentos e contornar pedidos formais de extradição. A justificativa foi duramente rebatida pelo chefe da PF.

“Não é possível imaginar que um policial está nos EUA para enganar as agências americanas e ludibriar um processo que a própria agência que ele está lotado produz”, afirmou, classificando a acusação como “risível”.

Contexto: prisão de Ramagem e cooperação bilateral

O episódio ocorre poucos dias após a prisão, em 13 de abril, do ex-delegado federal e ex-deputado Alexandre Ramagem por agentes do serviço de imigração dos Estados Unidos. À época, a Polícia Federal brasileira havia informado que a operação foi conduzida de forma conjunta entre os dois países.

Marcelo Ivo participou diretamente das articulações relacionadas ao caso. Ramagem foi condenado no ano anterior a mais de 16 anos de prisão por envolvimento em tentativa de golpe de Estado ao fim do governo de Jair Bolsonaro, além de ter perdido o mandato parlamentar. Ele deixou o Brasil posteriormente e passou a ser alvo de um processo de extradição.

Repercussão política e pedidos de investigação

A crise diplomática também gerou desdobramentos no cenário político brasileiro. Parlamentares da oposição, especialmente ligados ao PL e ao Novo, protocolaram um pedido de impeachment contra o ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, responsável pela Polícia Federal.

Além disso, a Procuradoria-Geral da República foi acionada para apurar possíveis irregularidades na atuação do delegado. O deputado Helio Lopes (PL-RJ) afirmou que houve “uma atuação considerada irregular, fora dos canais legais de cooperação internacional”.

Já o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu que a prisão de Ramagem poderia ter sido motivada por uma infração de trânsito de menor gravidade, versão que diverge das informações oficiais sobre o caso.

Nomeação, substituição e prazo da missão

Marcelo Ivo de Carvalho havia sido designado em março de 2023 para a função de oficial de ligação junto ao Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), em Miami, com mandato inicial de dois anos. Posteriormente, sua permanência foi estendida até agosto de 2026, conforme publicação no Diário Oficial da União.

No entanto, em 17 de março deste ano, o diretor-geral da PF já havia determinado sua substituição por outra delegada, Tatiana Torres — decisão anterior aos eventos envolvendo a prisão de Ramagem, o que indica que a troca não está diretamente relacionada ao episódio recente.

Impasse aberto e tensão bilateral

Sem esclarecimentos formais por parte das autoridades norte-americanas, o impasse permanece aberto, evidenciando um momento de tensão na cooperação policial entre Brasil e Estados Unidos — tradicionalmente marcada por intercâmbio de informações e atuação conjunta em casos transnacionais.

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