Relatos apontam contatos do ministro do STF com o presidente do BC durante análise de operação bilionária; magistrado nega interferência e cita reuniões motivadas por sanções dos EUA
Relatos e questionamentos
A divulgação de informações segundo as quais o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria procurado o presidente do Banco Central para tratar de uma operação bilionária envolvendo o Banco Master ampliou o escrutínio sobre a atuação do magistrado. A apuração foi publicada pela colunista Malu Gaspar, do O Globo, com base em relatos de seis pessoas que afirmam ter tomado conhecimento dos contatos a partir do próprio comando da autoridade monetária e de outros integrantes da instituição.
Segundo a reportagem, teriam ocorrido três telefonemas e um encontro presencial, em julho, período em que o BC analisava a venda do Master ao BRB, operação inicialmente estimada em R$ 2 bilhões. A colunista relata que o ministro teria solicitado a aprovação do negócio.
Nota do ministro e versão apresentada
Em nota divulgada nesta terça-feira (23), Moraes afirmou que recebeu o então presidente do BC, Gabriel Galípolo, para reuniões relacionadas à aplicação da Lei Magnitsky. O magistrado foi alvo de sanções financeiras impostas pelo governo dos Estados Unidos em 30 de julho, posteriormente revogadas em 12 de dezembro. De acordo com o jornal, o encontro teria ocorrido no próprio mês de julho.
O ministro também declarou ter se reunido com dirigentes de instituições financeiras e da federação do setor para discutir, exclusivamente, os efeitos das sanções sobre a manutenção de serviços bancários básicos. Ele não comentou diretamente a alegação de que teria pedido aval à operação entre o Master e o BRB.
Operação sob análise e resposta técnica
Conforme a apuração, na conversa presencial, o ministro teria manifestado apreço pelo controlador do banco e reiterado o pedido de aprovação. A resposta do BC, segundo os relatos, foi a de que técnicos haviam identificado a transferência de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas irregulares ao BRB, o que inviabilizaria a autorização.
Posteriormente, em 18 de novembro, executivos do banco foram presos e a autoridade monetária decretou a liquidação da instituição. O controlador deixou a prisão dias depois e passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica.
Pressão da oposição e contrato de advocacia
O BC informou que não comentaria os relatos. No Congresso, parlamentares de oposição cobraram esclarecimentos e relembraram informação divulgada anteriormente sobre a contratação do escritório da esposa do ministro para prestar serviços ao banco. Segundo outra reportagem do jornal, o contrato teria duração de 36 meses a partir de 2024 e poderia alcançar R$ 129 milhões até 2027, caso a instituição não fosse liquidada.
O acordo previa representação ampla do banco perante órgãos como Banco Central, Receita Federal e Congresso Nacional, além de atuação estratégica e contenciosa no Judiciário, no Ministério Público e na Polícia Federal. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, classificou o episódio como conflito de interesses e defendeu uma agenda de reformas no Judiciário a partir de 2026.
Já o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) afirmou que pretende recolher assinaturas para investigar a contratação, classificando o contrato como “fora do padrão” e apontando possível atuação direta do ministro em favor da instituição financeira.
Reações no STF
No Supremo, o ministro Gilmar Mendes saiu em defesa do colega. Em conversa com jornalistas, afirmou confiar na atuação de Moraes e disse não ver irregularidade, acrescentando que a intervenção do Banco Central e as prisões indicariam o funcionamento regular das instituições.
Ele também comentou, de forma geral, sobre a convivência entre ministros, advogados e políticos, dizendo tratar-se de interações comuns e sem impedimentos. Questionado sobre outro episódio envolvendo o ministro Dias Toffoli —que viajou em jato particular ao lado de um advogado ligado ao caso—, preferiu não comentar situações específicas, reiterando que encontros sociais não implicam interferência em processos.



