Parecer do senador Alessandro Vieira será submetido à votação e amplia escopo da investigação ao vincular autoridades a suposto esquema financeiro
Indiciamentos e fundamentos apresentados no relatório
O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, elaborado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE ), propõe o indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O parecer, que deve ser apreciado pelos integrantes da comissão nesta terça-feira (14), atribui aos magistrados a prática de crimes de responsabilidade, passíveis de fundamentar pedidos de impeachment. No caso do chefe da Procuradoria-Geral da República (PGR), o documento sustenta omissão no dever de investigar autoridades supostamente envolvidas.
Segundo o relator, Moraes e Toffoli teriam atuado “de modo incompatível” com a honra, a dignidade e o decoro de suas funções, em razão de relações atribuídas ao Banco Master. Já em relação a Gilmar Mendes, o relatório indica que decisões judiciais teriam interferido na apuração conduzida pela CPI.
Tramitação e possíveis desdobramentos institucionais
O indiciamento, no âmbito de uma CPI, consiste na imputação formal de supostos crimes a determinados investigados. Caso o relatório seja aprovado, o documento será encaminhado à presidência do Senado, atualmente sob comando de Davi Alcolumbre, que poderá deliberar sobre a abertura de eventual processo por crime de responsabilidade.
Até o momento, tanto o STF quanto a PGR foram procurados para se manifestar sobre as conclusões do relatório, mas não haviam apresentado resposta até a última atualização do texto.
Mudança de foco da CPI e investigação sobre o Banco Master
Instalada originalmente para investigar a atuação de organizações criminosas, especialmente ligadas ao narcotráfico, a CPI ampliou seu escopo ao longo dos trabalhos. Parlamentares passaram a concentrar parte das apurações nas operações financeiras do Banco Master e em suas supostas conexões com agentes públicos.
O relatório sustenta que o caso envolvendo a instituição financeira pode representar “o maior escândalo financeiro da história recente do Brasil”, ao apontar uma possível convergência entre crimes financeiros sofisticados e organizações criminosas de atuação territorial.
De acordo com o documento, além de operações com certificados de depósito bancário (CDBs) com taxas acima do padrão de mercado e negociações com o Banco de Brasília (BRB), haveria indícios de empréstimos simulados direcionados a fundos administrados por gestoras sob investigação, com possíveis vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
“O caso Master, contudo, não se esgota na fraude financeira. Sua dimensão mais grave, do ponto de vista do escopo desta CPI, reside na comprovação de que estruturas financeiras sofisticadas foram instrumentalizadas para a lavagem de dinheiro de facções criminosas, notadamente o PCC, e para a corrupção”, afirma o relatório.
Apontamentos envolvendo Alexandre de Moraes
No caso de Alexandre de Moraes, o relator menciona contrato firmado entre o Banco Master e escritório de advocacia vinculado à esposa do ministro. Segundo o documento, os valores recebidos poderiam configurar impedimento para atuação em processos relacionados à instituição.
“A remuneração recebida pela família Moraes estava, portanto, diretamente associada à gestão das relações do banco com os poderes e órgãos perante os quais o banco tinha interesse em processos pendentes”, registra o texto.
O relatório também cita troca de mensagens atribuída ao ministro com o controlador do banco, além de viagens em aeronaves associadas ao empresário e suposta atuação para influenciar decisões institucionais — alegações que são negadas por Moraes.
“Essa conduta, se confirmada pelo conjunto probatório que a comissão reuniu, é das mais graves e incompatíveis com a função de magistrado”, acrescenta o senador.
Questionamentos sobre decisões de Dias Toffoli
Em relação a Dias Toffoli, o relatório aponta possível conflito de interesses em decisões tomadas no âmbito de investigações relacionadas ao Banco Master. O documento menciona vínculos empresariais e decisões que, segundo o relator, teriam favorecido investigados.
“Cada ato individual, embora isoladamente pudesse ser interpretado como exercício legítimo de competência jurisdicional, adquire significado diverso quando lido no conjunto do padrão decisório”, diz o texto.
O senador também reconheceu a necessidade de corrigir um trecho do relatório que atribuía indevidamente ao ministro uma decisão judicial proferida por outra instância.
Atuação de Gilmar Mendes sob análise
Quanto a Gilmar Mendes, o relatório sustenta que o ministro teria atuado para anular medidas investigativas aprovadas pela CPI, incluindo quebras de sigilo. Segundo o documento, decisões judiciais teriam impedido o compartilhamento de informações com órgãos como Banco Central, Receita Federal e Coaf.
Para o relator, houve “uso da jurisdição constitucional para fins de proteção corporativa”, o que, segundo ele, comprometeria a credibilidade institucional do tribunal.
Avaliação sobre a conduta do procurador-geral
No caso do procurador-geral da República, Paulo Gonet, o relatório aponta omissão diante de indícios apresentados em reportagens e documentos oficiais. O senador afirma que não houve iniciativa para aprofundar investigações envolvendo autoridades citadas.
“A inércia do PGR contrasta frontalmente com a atuação proativa da Polícia Federal”, afirma o relatório, ao sustentar que a ausência de medidas não decorreu de falta de provas, mas de decisão deliberada.
Ainda segundo o texto, como a PGR detém competência exclusiva para processar ministros do STF, a suposta omissão equivaleria, na prática, a uma “anistia de facto” em relação aos investigados.



