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Saúde

Obesidade supera hipertensão e assume liderança como maior ameaça à saúde pública no Brasil

Redação
15 de maio de 2026 às 18:40
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Obesidade supera hipertensão e assume liderança como maior ameaça à saúde pública no Brasil

Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

O novo mapa de riscos: quando os números revelam uma crise silenciosa

 

A obesidade assumiu o posto de maior fator de risco à saúde no Brasil, desbancando a hipertensão arterial — que liderou por décadas — como principal ameaça ao bem-estar da população. O diagnóstico, publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas em maio de 2024, é resultado do Estudo Global sobre Carga de Doenças, que analisa dados de mais de 200 países e 30 anos de pesquisa.

Em 1990, os três principais fatores de risco no Brasil eram hipertensão (12,3%), tabagismo (8,9%) e poluição por material particulado (7,8%). À época, a obesidade ocupava a sétima posição, com um risco atribuído de 3,1%. Três décadas depois, os números invertem a lógica: a obesidade saltou para o topo, respondendo por 15,3% do risco total de morte ou perda de qualidade de vida, enquanto a hipertensão recuou para 11,2% e a glicemia elevada — outro marcador da epidemia — atingiu 8,7%.

O Índice de Massa Corporal (IMC) elevado não é apenas um indicador estatístico; é a face visível de um cenário complexo. Segundo o endocrinologista Alexandre Hohl, membro da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), o país enfrenta um “ambiente obesogênico” — um território onde a urbanização acelerada, a oferta massiva de alimentos ultraprocessados e a redução drástica da atividade física criam condições ideais para o desenvolvimento de doenças metabólicas.

Os custos de uma sociedade em transição: o que mudou — e o que não mudou — desde 1990

A evolução dos dados traz consigo tanto avanços quanto retrocessos. Por um lado, houve reduções significativas em fatores de risco historicamente combatidos: a poluição do ar caiu 69,5%, o tabagismo diminuiu 60% e os casos de colesterol LDL alto recuaram expressivamente. A mortalidade infantil por baixo peso ao nascer também apresentou queda expressiva, reflexo de políticas públicas de saúde materno-infantil.

No entanto, as boas notícias esbarram em um paradoxo: a obesidade e a glicemia elevada avançam em ritmo acelerado. Desde 2021, o risco atribuído ao tabagismo — que vinha em queda constante há anos — apresentou um ligeiro aumento de 0,2%, possivelmente associado ao estresse pós-pandemia e à retomada de hábitos prejudiciais.

Outro dado alarmante, ainda não completamente elucidado na pesquisa, diz respeito ao risco atribuído à violência sexual, que emergiu como um novo vetor de danos à saúde pública, embora seu impacto quantitativo ainda exija estudos complementares.

Do excesso de peso à doença crônica: por que a obesidade é mais do que um problema estético

Segundo Hohl, a obesidade deve ser compreendida como uma “doença crônica inflamatória e metabólica”, cujas consequências vão muito além da estética. O excesso de gordura corporal desencadeia um ciclo vicioso de inflamação sistêmica, aumentando simultaneamente o risco de diabetes tipo 2 (em até 80%), hipertensão (70%), infarto (50%), acidente vascular cerebral (35%) e diversos tipos de câncer, como mama, cólon e fígado.

O médico destaca que, enquanto a hipertensão e o tabagismo foram combatidos com campanhas de conscientização e medicamentos, a obesidade carece de uma estratégia coordenada que una saúde pública, regulação de alimentos e educação nutricional. “Não adianta apenas tratar as consequências; é preciso mudar o ambiente que nos leva a adoecer”, afirma Hohl.

O Brasil, que já foi referência em políticas de saúde preventiva, como a redução do tabagismo, enfrenta agora um desafio inédito: como reverter uma epidemia que se alimenta do próprio modelo de desenvolvimento urbano. A resposta, segundo especialistas, passa por uma combinação de impostos sobre alimentos ultraprocessados, regulação da publicidade de produtos açucarados, incentivos à atividade física em cidades e, sobretudo, uma mudança cultural na relação com a alimentação.

O que vem pela frente: um chamado à ação para o poder público e a sociedade

Enquanto o estudo não oferece soluções mágicas, ele deixa claro que a obesidade não é um fenômeno passageiro, mas uma crise de saúde pública que demanda urgência. Países como México e Chile já implementaram taxações sobre refrigerantes e alimentos ultraprocessados com resultados promissores na redução do consumo. No Brasil, onde 22% da população adulta é obesa e outros 57% apresentam sobrepeso, a discussão sobre regulação estatal esbarra em interesses econômicos e na resistência de setores da indústria alimentícia.

Para o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, a solução deve ser multifatorial: “Precisamos de políticas públicas que façam com que as escolhas saudáveis sejam as mais fáceis. Isso inclui desde calçadas seguras para caminhar até escolas sem cantinas repletas de ultraprocessados”.

O alerta soa alto: se nada for feito, a obesidade não apenas continuará dominando o ranking de riscos, como também poderá sobrecarregar o sistema de saúde, já pressionado por doenças crônicas. Em um país onde a expectativa de vida já enfrenta sinais de estagnação, o custo humano e econômico dessa epidemia pode ser irreparável.

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