Estudo revela circulação expressiva em regiões específicas
Prevalência elevada em áreas vulneráveis
Uma revisão conduzida pelo Hospital Israelita Albert Einstein, publicada na PLOS One, analisou 200 estudos entre 2013 e 2024, envolvendo mais de 14,5 milhões de pessoas. Os resultados apontam prevalência de até 23,9% para hepatite D na Amazônia e 59,4% para hepatite E no Sul. “A pesquisa nos alerta para a presença dessas sorologias incomuns que podem não estar sendo diagnosticadas corretamente por não estarem no radar de nossa prática clínica”, afirmou o patologista João Renato Rebello Pinho.
Diferenças entre os tipos de hepatite
As hepatites A e E estão ligadas ao consumo de água ou alimentos contaminados, enquanto B, C e D são transmitidas por sangue e fluidos corporais. A hepatite D depende da presença do vírus B para se instalar, tornando a vacinação contra hepatite B uma forma indireta de prevenção. “Apenas assim conseguiremos de fato eliminar essas infecções virais aqui do Brasil”, destacou Pinho.
Hepatite D: impacto em populações ribeirinhas e indígenas
O genótipo 3 do vírus Delta predomina na Amazônia e está associado a quadros mais graves. “O vírus D utiliza o vírus B, mesmo que esse esteja aparentemente controlado, e reativa a doença, por isso a correlação entre eles”, explicou o pesquisador. A ausência de testes rápidos e a dificuldade de acesso a serviços de saúde agravam o cenário.
Escassez de pesquisas sobre hepatite D
Dos 200 estudos avaliados, apenas 16 abordaram diretamente a hepatite D. “Uma das hipóteses que temos é que, como o genótipo 3 leva a infecções mais graves, os atingidos viajam menos e possuem menos contato com outras populações, mas faltam estudos que permitam nos aprofundarmos no tema”, analisou Pinho.
Hepatite E: transmissão ligada a suínos
A hepatite E circula entre humanos e animais, especialmente porcos. “Os estudos feitos em animais brasileiros detectaram porcos com hepatite E em todas as regiões do Brasil”, observou Pinho. O genótipo 3, predominante no país, costuma ser menos agressivo, mas pode causar inflamação intensa e até necessidade de transplante. A criação de suínos no Sul ajuda a explicar índices elevados, chegando a 59,4%.
Diagnóstico insuficiente e subnotificação
A hepatite E foi tema de apenas 30 estudos, dificultando estimar sua real circulação. “O que os levantamentos indicam é que pessoas negativas para os demais vírus da hepatite podem ter, na verdade, essa forma da doença”, relatou Pinho. A ausência de sintomas em parte dos casos contribui para diagnósticos tardios e subnotificação.
Necessidade de ampliar pesquisas e vacinação
A revisão destaca a urgência de fortalecer laboratórios, ampliar testagem e incluir populações vulneráveis em novos estudos. “O Brasil acumula importantes avanços no enfrentamento das hepatites virais, especialmente por meio da ampliação do acesso à vacinação, ao diagnóstico e ao tratamento. Mas é preciso fortalecer a vacinação sempre e aumentar nossa base de dados para a saúde pública coordenar esforços e cumprir seu objetivo de eliminar a hepatite da lista de problemas de saúde pública até 2030, como é a meta da Organização Mundial da Saúde”, concluiu Pinho.




