A japonesa Casio Computer surpreendeu o mercado de eletrônicos ao lançar, em setembro de 2023, uma edição especial de sua calculadora ClassWiz, modelo já consagrado entre estudantes e profissionais do setor financeiro
A novidade, no entanto, não se limitou a funcionalidades técnicas: o produto, revestido em alumínio anodizado e com detalhes em ouro 18 quilates, foi posicionado como um item de luxo, com preço inicial de R$ 4.990 — valor até 20 vezes superior ao de modelos convencionais da mesma linha. O resultado foi uma demanda inesperada, com estoques de varejistas como Amazon, Mercado Livre e lojas especializadas esgotando-se em menos de uma semana, mesmo com entregas programadas para até dois meses após a compra.
A estratégia da Casio reflete uma tendência crescente no setor de eletrônicos: a transformação de produtos utilitários em itens de status. Segundo analistas do mercado de bens de luxo, a manobra da empresa japonesa se alinha a um movimento observado em setores como relógios inteligentes e acessórios tecnológicos, onde marcas tradicionais buscam diversificar suas receitas com produtos premium. “A Casio identificou uma brecha no mercado de itens de luxo acessíveis, onde há demanda por exclusividade sem o preço estratosférico de marcas como Rolex ou Apple”, afirmou o economista Carlos Henrique Silva, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A estratégia, segundo ele, pode servir de case para outras empresas do segmento de eletrônicos, que enfrentam margens cada vez mais apertadas em produtos de massa.
O fenômeno do esgotamento rápido dos estoques não é isolado no Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa, edições limitadas de calculadoras de luxo — como a HP 12C Gold, lançada em 2022 a US$ 1.200 — também registraram vendas expressivas, embora em menor escala. A diferença, no entanto, está no público-alvo: enquanto os modelos internacionais se dirigem a colecionadores e profissionais do mercado financeiro, a Casio parece ter atingido um nicho mais amplo, incluindo consumidores que buscam diferenciação social. “Há uma psicologia por trás da compra desses itens: não é apenas sobre a funcionalidade, mas sobre o status que eles conferem”, explicou a socióloga Maria Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP).
A decisão da Casio de investir em um produto de luxo também levanta questões sobre a sustentabilidade do modelo. Especialistas em varejo digital alertam para o risco de superestimação da demanda, uma vez que o público disposto a pagar preços premium é reduzido. “Edições especiais como essa dependem de um equilíbrio delicado entre exclusividade e acessibilidade. Se a Casio não conseguir manter a produção em escala suficiente, poderá frustrar expectativas e prejudicar sua imagem”, avaliou o consultor de negócios Ricardo Mendes, da Bain & Company. Até o momento, a empresa não se pronunciou sobre possíveis novas remessas ou ampliações de estoque.
O sucesso da calculadora premium da Casio também pode ter desdobramentos para a política de preços da marca. Em 2022, a empresa registrou queda de 8% em suas vendas globais, pressionada pela concorrência de calculadoras chinesas de baixo custo. A aposta em um nicho de luxo, no entanto, pode ser uma forma de compensar essas perdas, ainda que o volume de vendas seja menor. “A margem de lucro nesses produtos é significativamente maior, o que pode compensar a queda em vendas de itens de entrada”, destacou o relatório anual da Casio, divulgado em março de 2023.
Outro aspecto a ser considerado é o impacto da inflação e da valorização do câmbio no consumo de bens de luxo. Com o real brasileiro se desvalorizando frente ao dólar em cerca de 20% nos últimos 12 meses, produtos importados como a calculadora da Casio se tornaram ainda mais caros para o consumidor local. “Isso pode explicar parte da corrida inicial aos estoques: quem tem poder aquisitivo está buscando proteger seu patrimônio contra a desvalorização da moeda”, analisou a economista Fernanda Costa, da XP Investimentos. A Casio, cuja matriz está sediada no Japão, não comentou publicamente sobre possíveis ajustes de preço ou estratégias para mitigar os efeitos da variação cambial.
Para o futuro, o mercado espera que a Casio mantenha a estratégia de lançar edições limitadas, mas a dúvida persiste sobre a capacidade de sustentar o interesse do público. Enquanto isso, outras marcas de eletrônicos já sinalizam movimentos semelhantes: a Texas Instruments, tradicional no segmento de calculadoras, anunciou planos para lançar uma linha premium em 2024, com preços estimados em até R$ 7.500. “A guerra pelos consumidores de alto poder aquisitivo está apenas começando”, concluiu Silva, da FGV.
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