O Banco Bradesco S.A. (B3: BBDC3/BBDC4) apresentou nesta quarta-feira (8) seu balanço consolidado do primeiro trimestre de 2024, revelando um lucro líquido ajustado de R$ 10,8 bilhões, alta de 12,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado superou a mediana das projeções de analistas ouvidos pela Reuters, que estimavam um lucro de R$ 9,7 bilhões. Contudo, o desempenho positivo foi ofuscado por um aumento de 18,7% na taxa de inadimplência, atingindo 2,8% no período, contra 2,4% no primeiro trimestre de 2023. A tendência, segundo fontes do mercado, reflete um cenário macroeconômico desafiador, marcado pela alta dos juros e pela desaceleração do mercado de trabalho.
A instituição, que mantém a segunda maior carteira de crédito do país, registrou um crescimento de 5,1% no volume de operações totais, alcançando R$ 1,2 trilhão. O segmento de crédito pessoal, responsável por 23% da carteira, apresentou a maior alta na taxa de inadimplência, subindo de 3,1% para 3,9%, enquanto o crédito consignado, tradicionalmente mais seguro, viu sua taxa avançar de 0,8% para 1,2%. O Bradesco justificou o aumento como reflexo do endividamento crescente das famílias, impulsionado pela inflação persistente nos últimos dois anos e pela política monetária restritiva do Banco Central, que manteve a Selic em 10,75% ao ano até março.
Para o J.P. Morgan, o balanço do Bradesco contém ‘partes móveis’ — termo usado pelo banco para designar elementos voláteis que podem impactar resultados futuros. Em relatório distribuído a clientes, a instituição destacou que, embora o lucro tenha superado as expectativas, a deterioração da qualidade do crédito exige ‘monitoramento rigoroso’. O documento ressalta ainda que a margem financeira bruta, que cresceu 8,2% no período, foi sustentada principalmente pelo aumento das taxas de juros praticadas pelo banco, que refletem o custo de captação mais elevado no mercado.
O cenário preocupa analistas independentes. ‘O Bradesco tem um histórico de gestão conservadora, mas a combinação de endividamento elevado das famílias e juros ainda elevados pode pressionar os índices de inadimplência nos próximos trimestres’, avaliou o economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale. Segundo projeções da consultoria, o índice de inadimplência poderia superar 3,5% até o final de 2024, caso não haja uma melhora significativa no mercado de trabalho ou uma redução mais agressiva da Selic.
O Bradesco, em comunicado oficial, afirmou que está ‘proativamente ajustando suas políticas de concessão de crédito’ para mitigar riscos. A instituição também anunciou um aumento de 15% no provisionamento para créditos de liquidação duvidosa, totalizando R$ 12,4 bilhões no trimestre — um recorde desde 2020. A estratégia de provisionamento, embora impactar o lucro líquido no curto prazo, é vista como prudente por reguladores e analistas.
Historicamente, o Bradesco tem demonstrado resiliência em ciclos de alta inadimplência. Durante a crise de 2015-2016, quando o índice de não pagamento atingiu 4,2%, a instituição conseguiu se recuperar em dois anos, graças a uma gestão agressiva de recuperação de créditos e à diversificação de sua carteira. No entanto, especialistas alertam que o atual contexto é distinto: a inflação, embora desacelerando, ainda corrói a renda disponível, enquanto a taxa de desemprego, embora em queda, permanece acima de 7%. ‘A recuperação da inadimplência tende a ser mais lenta desta vez’, projetou o diretor de pesquisa da Ativa Investimentos, Arthur Carvalho.
O mercado financeiro, ao mesmo tempo em que celebra o lucro recorde do Bradesco, mantém cautela. O banco encerrou o dia com leve alta de 0,8% nas ações ordinárias (BBDC3), enquanto o Índice Bovespa (Ibovespa) registrou queda de 0,3%. Analistas de corretoras como BTG Pactual e Itaú BBA destacaram que, apesar do resultado positivo, a ‘saúde financeira dos clientes’ deve ser o principal vetor de risco para os próximos balanços. O Bradesco, por sua vez, reiterou que está ‘bem capitalizado’ com um índice de Basileia de 17,2%, acima do mínimo regulatório de 11,5%.
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