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A ÚLTIMA PÁGINA QUE NÃO EXISTIA – Por: Wilton Emiliano Pinto *

Jeverson
19 de agosto de 2026 às 16:33
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A ÚLTIMA PÁGINA QUE NÃO EXISTIA –   Por: Wilton Emiliano Pinto *

Divulgação

Durante algum tempo, acreditei que já tinha escrito minha última página.

Não porque me faltassem ideias.

Mas porque imaginei que cada fase da vida tivesse o seu tempo, e que a minha como escritor já houvesse terminado.

Quando tinha dezoito anos, descobri a poesia.

Era uma maneira de conversar comigo mesmo.

Escrevia sem pensar em publicar, sem imaginar leitores. Apenas escrevia.

As palavras encontravam um lugar onde os pensamentos descansavam.

Algum tempo depois, trabalhando em uma empresa, tive a alegria de ver um conto publicado no jornal interno.

Foi uma emoção difícil de explicar.

Pela primeira vez percebi que aquilo que eu escrevia podia atravessar o papel e chegar ao coração de outras pessoas.

Os anos passaram.

Vieram os livros.

Um deles contou a expedição que realizamos, em 2007, pelo Rio do Peixe.

Outro procurou preservar a história do nascimento do povoado de Estulânia, para que o tempo não apagasse as lembranças de quem ajudou a construí-lo.

Mais tarde escrevi também a história da minha própria vida.

Cada livro representava uma etapa concluída.

Era como colocar um ponto final em capítulos importantes da minha caminhada.

Depois disso, veio o silêncio.

Não um silêncio triste.

Apenas a sensação de missão cumprida.

Achei que tudo o que eu tinha para escrever já havia sido escrito.

Durante algum tempo, aceitei essa ideia com naturalidade.

Afinal, existem fases que começam e outras que terminam.

Pensei que aquela tivesse sido a última.

Mas a vida tem o curioso hábito de não nos contar seus próximos capítulos.

Quando menos esperei, as crônicas apareceram.

Não chegaram fazendo barulho.

Vieram devagar.

Primeiro uma.

Depois outra.

Sem perceber, elas começaram a ocupar um espaço que eu acreditava já estar vazio.

Hoje escrevo duas por semana.

E, curiosamente, descobri que nunca deixei de escrever sobre o mesmo assunto.

Sempre escrevi sobre pessoas.

Sobre lembranças.

Sobre o tempo.

Sobre a natureza.

Sobre a fé.

Sobre as pequenas coisas que quase ninguém percebe, mas que, no fundo, explicam quem somos.

Mudou apenas o jeito de contar.

A poesia me ensinou a sentir.

O conto me ensinou a imaginar.

Os livros me ensinaram a preservar memórias.

As crônicas me ensinaram a conversar.

Foi então que compreendi uma coisa.

Às vezes pensamos que encerramos um ciclo.

Na verdade, Deus apenas está preparando outro.

Há portas que se fecham.

Mas existem janelas que só se abrem quando já não estamos olhando para elas.

Hoje percebo que aquela última página nunca existiu.

Ela era apenas o fim de um capítulo.

A vida ainda guardava outras folhas em branco.

E continuo escrevendo nelas.

Sem a pressa da juventude.

Sem a ansiedade de provar alguma coisa.

Escrevo porque gosto.

Porque me faz bem.

Porque, enquanto houver uma história para contar ou uma reflexão para dividir, ainda haverá sentido em pegar uma folha de papel, ou abrir a tela do computador.

Descobri que o tempo não aposenta os sonhos.

Apenas lhes oferece novas formas de acontecer.

Talvez seja essa uma das mais bonitas lições da vida.

Nunca sabemos qual será o último capítulo.

E isso é uma bênção.

Porque, enquanto Deus continuar escrevendo conosco,

sempre existirá uma página em branco esperando pelas próximas palavras.

Wilton escreve sobre os caminhos que a vida reabre quando pensamos que já chegamos ao fim.
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