Hoje eu me pego voltando aos meus quarenta e poucos anos.
Não é uma viagem planejada.
É um chamado silencioso que nasce dentro do peito.
De repente estou lá, inteiro, firme, com passos largos e coração cheio de planos.
Vejo-me vivendo intensamente as chácaras de Silvânia e de Claudinápolis.
Como trabalhei. Como sonhei. Como ri naquelas terras.
O cheiro da terra molhada.
O barulho do vento nas árvores.
As conversas demoradas no fim da tarde.
Eu não economizava vida. Eu vivia.
E como vivi o inesquecível rio do Peixe.
Suas águas correndo livres, levando canoas, levando risos, levando minha juventude madura de homem feito.
Quantas vezes mergulhei ali não apenas o corpo, mas a alma.
O rio seguia seu curso,
e eu seguia o meu,
sem imaginar que um dia tudo seria lembrança,
mas que lembrança bonita.
Também me vejo à beira-mar, em Ilhéus.
O sal na pele.
O horizonte infinito.
O som das ondas quebrando como se a vida estivesse sempre recomeçando.
Viajar com a família.
Sentir o vento forte no rosto.
Caminhar pela areia, que riqueza foi aquilo.
Eu não sabia,
mas estava colecionando eternidades.
Ah, meus filhos…
Como adorei vê-los crescer.
Cada fase uma descoberta.
Cada aniversário uma conquista.
Fui pai presente.
Levei à escola.
Acompanhei boletins.
Sentei à mesa para estudar junto.
Vibrei com notas boas.
Conversei nas dificuldades.
Ensinei responsabilidade
e aprendi sensibilidade.
Não terceirizei amor.
Participei.
Estive ali.
E ao meu lado, por cinquenta e cinco anos, esteve Itacira.
Cinquenta e cinco anos de companhia.
De parceria.
De paciência.
De construção diária.
Não foi apenas casamento;
foi caminhada.
Foi dividir alegrias e preocupações.
Foi enfrentar desafios de mãos dadas.
Foi amadurecer juntos.
Quando olho para trás, percebo que a maior conquista não foram as terras, nem as viagens, nem as realizações materiais,
foi termos permanecido lado a lado.
Hoje, aos oitenta e um anos, meu corpo já não tem a mesma pressa.
Mas minha alma está cheia.
Não carrego arrependimentos pesados.
Carrego histórias.
Carrego vivências de um homem que trabalhou, que amou, que educou, que construiu.
Às vezes a saudade aperta.
Aperta porque foi bom.
Porque foi intenso.
Porque foi verdadeiro.
Mas logo percebo que não estou distante daquele homem de quarenta e poucos anos.
Ele mora em mim.
Está nas minhas lembranças nítidas,
na minha emoção ainda viva,
no brilho que sinto quando conto essas histórias.
Eu vivi o que um homem de bem vive.
E vivi bem.
A juventude me deu força.
A maturidade me deu propósito.
O tempo me deu consciência.
Hoje não desejo voltar.
Desejo apenas agradecer.
Se a saudade me visita, eu a recebo como quem recebe uma velha amiga.
Ela me lembra que a vida não passou em branco.
Que houve amor.
Que houve entrega.
Que houve presença.
E enquanto eu puder recordar tudo isso com ternura, continuo vivendo,
não mais na pressa dos quarenta,
mas na serenidade de quem sabe
que fez da própria existência
uma história que valeu a pena ser vivida.




