A gente que já alcançou uma longevidade avançada passa a conviver com certas notícias com mais frequência.
Elas chegam quase sempre do mesmo jeito.
Em grupos de amigos que também já caminham há muito tempo pela vida.
Mensagens curtas.
Avisos discretos.
Alguém partiu.
Nessas horas, surge um incômodo silencioso.
Não é medo.
É uma inquietação sutil.
Uma pulga atrás da orelha.
Um pensamento que aparece sem convite:
quando será que essa notícia vai trazer o nosso nome?
Não gosto de pensar assim.
Confesso.
Mas sei que é necessário.
Não como ameaça.
Nem como peso.
Apenas como realidade.
Porque, gostemos ou não, um dia essa notícia chegará.
Para todos.
A morte nunca avisa.
Não pede licença.
Não consulta nossos planos.
Ela simplesmente chega.
E, quando chega, nos encontra quase sempre despreparados. Não porque não sabíamos que viria, todos sabemos, mas porque fingimos, durante a vida inteira, que ela mora longe.
A vida segue um roteiro silencioso, que não se curva aos nossos desejos. O sol nasce e se põe sem pedir opinião. As estações mudam sem avisar. O tempo avança sem olhar para trás. A morte caminha junto, discreta, como quem respeita o ritmo de cada um.
A natureza não debate suas leis.
Ela as cumpre.
Nós é que resistimos. Nós é que sofremos quando tentamos segurar o que foi feito para seguir.
Quando alguém parte, o impacto é imediato. O vazio se instala. O espaço antes ocupado se torna visível. A cadeira parece maior. O silêncio, mais pesado. A ausência grita.
Choramos. E é humano chorar.
Mas, muitas vezes, o choro nasce do apego à forma, não à essência.
O corpo que se vai era abrigo, não era a vida. A voz que silenciou era instrumento, não era o sentimento. O olhar que não encontramos mais era janela, não era o ser.
O amor nunca morou na matéria.
Ele sempre viveu num lugar que os olhos não alcançam, mas que o coração reconhece.
O corpo se desfaz porque cumpriu sua função. Como a roupa que se gasta depois de longa caminhada. Não há derrota nisso. Há conclusão. Há passagem. Há liberdade.
A morte não destrói.
Ela desamarra.
Ainda assim, resistimos. Revoltamo-nos. Lamentamos além da medida. E, sem perceber, transformamos saudade em peso. Não apenas para nós, mas também para quem partiu.
O excesso de dor prende.
O desespero alonga o sofrimento.
A revolta rouba energia.
Aceitar não é desistir. Não é frieza. Não é indiferença. Aceitar é compreender que nem tudo está sob nosso controle, e que isso também é parte da vida.
Há uma coragem silenciosa na aceitação. Uma força que não grita. Uma fé que não exige explicações imediatas.
A morte não interrompe a história.
Ela vira a página.
Quem parte segue. Talvez confuso no início. Talvez em silêncio. Mas vivo. Mais leve. Sem as limitações do corpo cansado, doente ou envelhecido. O espírito não se perde. Ele apenas muda de estado.
Nós é que ficamos.
E ficar é aprender.
Aprender a amar sem toque. A lembrar sem dor aguda. A conviver com a saudade sem permitir que ela nos imobilize. A seguir adiante sem culpa, porque viver também é uma forma de homenagem.
Chorar é natural. Permanecer na tempestade, não.
Depois da chuva, o céu reaprende a ser claro. Não igual ao de antes, mas possível. E verdadeiro.
Talvez o maior equívoco seja tratar a morte como fim. Ela é apenas porta. E portas existem para serem atravessadas.
Morrer na carne é renascer em outra dimensão da vida. Não é desaparecimento. É continuidade. Não é perda total. É transformação.
E assim seguimos. Lendo mensagens. Recebendo notícias. Sentindo aquele breve aperto no peito que logo se acomoda.
Até o dia em que a notícia trará o nosso nome.
Que, quando esse dia chegar, não nos encontre em fuga, nem em desespero.
Mas conscientes.
Em paz.
Prontos para atravessar.



