Operações do ICE se intensificam, ampliam clima de medo entre imigrantes e recebem orçamento recorde, enquanto análises apontam distância entre discurso do governo e estatísticas disponíveis
A política de deportações em larga escala adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde seu retorno à Casa Branca, tornou-se uma das marcas mais visíveis e controversas do atual mandato. A ofensiva, conduzida principalmente pelo serviço de imigração do país, alterou de forma profunda a rotina de comunidades estrangeiras e reacendeu o debate sobre legalidade, transparência e efeitos de longo prazo da estratégia.
Operações ampliadas e retração da vida pública
A intensificação das ações de fiscalização migratória levou agentes federais a realizar abordagens em locais de grande circulação, como estacionamentos, supermercados, escolas, tribunais e sistemas de transporte coletivo. O resultado tem sido um ambiente de apreensão constante entre imigrantes, que passaram a evitar atividades cotidianas e eventos culturais, segundo relatos de organizações de defesa de direitos civis.
As prisões de estrangeiros em situação irregular são conduzidas pelo ICE, que teve seu orçamento projetado para crescer cerca de 200% no próximo ano. O reforço financeiro ampliou a capacidade operacional do órgão, mas também elevou as críticas da oposição, que questiona métodos considerados agressivos, como entradas forçadas em residências e detenções coletivas em áreas rurais.
Divergência sobre o total de deportações
Apesar da visibilidade das operações, não há consenso sobre o número real de pessoas removidas do país. O governo Trump afirma que houve uma redução líquida de 2,5 milhões de estrangeiros na população imigrante, sendo 600 mil deportações formais e o restante saídas voluntárias. Estimativas divulgadas por veículos da imprensa americana, no entanto, apresentam variações relevantes.
Levantamento baseado em dados oficiais obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação dos EUA indica que, entre janeiro e setembro de 2025, ao menos 113 mil imigrantes foram deportados pelo ICE. O número representa um salto de 126% em relação ao mesmo período de 2024, quando o país era governado por Joe Biden. A compilação foi realizada pelo Deportation Data Project, ligado à Universidade da Califórnia.
O estudo considera apenas deportações executadas pelo ICE, excluindo ações do CBP, órgão responsável principalmente pela fiscalização nas fronteiras. Isso sugere que o total possa ser maior, embora o fluxo migratório pela fronteira sul tenha caído significativamente em 2025.
Questionamentos jurídicos e efeitos temporários
Especialistas em direito migratório avaliam que o impacto da política pode ser passageiro. Para Daniel Kanstroom, professor do Boston College, as forças que impulsionam a migração, sobretudo na América Latina, seguem intactas. Segundo ele, sem mudanças estruturais na região e enquanto houver demanda por mão de obra nos Estados Unidos, o movimento migratório tende a continuar.
Kanstroom também aponta crescente insegurança jurídica. Advogados relatam dificuldade em orientar clientes diante de práticas que, segundo ele, apresentam indícios de ilegalidade nos processos de prisão e deportação. O clima de incerteza, afirma, atinge inclusive cidadãos americanos em comunidades com forte presença de imigrantes.
Países de destino e mudança de padrão
A análise dos dados revela alterações relevantes nos destinos das deportações. Diferentemente do observado no governo anterior, quando nacionalidade e país de envio coincidiam na maioria dos casos, a atual gestão passou a encaminhar imigrantes para nações das quais não são cidadãos, como México e El Salvador.
Os mexicanos seguem como o principal grupo afetado, representando cerca de 40% do total. Na sequência aparecem guatemaltecos, hondurenhos e venezuelanos. Brasileiros ocupam a 11ª posição, com 1.373 deportações no período analisado — quase quatro vezes mais do que no ano anterior.
O envio de pessoas ao México quase dobrou, chegando a 48 mil casos, dos quais ao menos 4 mil envolveram cidadãos de outras nacionalidades. As deportações para a Venezuela também cresceram de forma acentuada, impulsionadas por negociações com o regime de Nicolás Maduro para retomada dos voos de repatriação.
Orçamento recorde e expansão do ICE
Com a aprovação do orçamento proposto por Trump pelo Congresso americano, os recursos do ICE devem saltar de US$ 10 bilhões em 2025 para pelo menos US$ 30 bilhões no próximo ano, com previsão de investimentos adicionais até 2029. O montante colocaria a agência, se fosse comparada a forças armadas nacionais, entre as maiores do mundo em gastos anuais.
O plano de expansão inclui a contratação de cerca de 5 mil novos agentes, elevando o efetivo para 30 mil, além do aumento da capacidade de detenção para até 100 mil leitos. Relatos da imprensa indicam ainda a fixação de metas diárias de até 2 mil prisões a partir de 2026.
Para especialistas, o reforço estrutural consolida uma política baseada não apenas na remoção de imigrantes, mas também na criação de um ambiente de dissuasão. O efeito colateral, apontam críticos, é um nível de temor considerado inédito na sociedade americana contemporânea.



