Decisões processuais controversas, relações indiretas com investigados e atritos institucionais colocam o ministro no centro do desconforto interno da Corte
A condução das investigações sobre o Banco Master pelo ministro Dias Toffoli tem provocado um ambiente de crescente tensão no Supremo Tribunal Federal (STF). O caso, que envolve suspeitas de fraudes financeiras bilionárias e levou à liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central, extrapolou o campo jurídico e passou a gerar incômodo político e institucional dentro da própria Corte.
O desconforto se intensificou após a revelação de vínculos indiretos entre familiares do ministro e personagens centrais do caso, somando-se a decisões consideradas atípicas por investigadores e juristas. Nos bastidores do STF, ministros discutem alternativas para reduzir o desgaste, que vai desde uma eventual redistribuição do processo até a aceleração da discussão sobre um código de conduta para magistrados de tribunais superiores.
A seguir, os principais pontos que alimentam as críticas à atuação de Toffoli no caso Master.
Decisões judiciais sob questionamento
Desde que assumiu a relatoria, Toffoli adotou medidas que causaram estranhamento entre integrantes da Polícia Federal (PF) e do Banco Central. Entre elas, a redução de prazos para a realização de depoimentos, críticas públicas à velocidade das investigações e a decretação de sigilo sobre o processo, decisão que foi alvo de questionamentos por parte de juristas.
Outro foco de atrito envolveu a condução da análise de provas apreendidas na segunda fase da Operação Compliance Zero. Inicialmente, o ministro determinou que todo o material permanecesse lacrado e sob custódia do STF, antes de autorizar a participação de peritos por ele indicados na extração de dados, sob supervisão da Procuradoria-Geral da República (PGR).
O relacionamento com o Banco Central também se deteriorou após Toffoli convocar o diretor de Fiscalização da autarquia, Aílton de Aquino, para uma acareação no STF em período de recesso, sem que houvesse divergências prévias a serem esclarecidas. O depoimento acabou sendo colhido, mas a acareação foi posteriormente dispensada.
Negócios envolvendo familiares ampliam desconforto
Reportagens publicadas pela imprensa revelaram que fundos de investimento ligados a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro — controlador do Banco Master e alvo da operação da PF — adquiriram parte da participação de irmãos de Toffoli em um resort no interior do Paraná.
A operação ocorreu em 2021 e envolveu o resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro. À época, a transação foi avaliada em cerca de R$ 6,6 milhões. Embora Toffoli não figure como sócio do empreendimento, ele é apontado como frequentador habitual do local, o que contribuiu para ampliar o constrangimento interno no STF.
Mesmo após a venda do controle do resort para um terceiro, em fevereiro de 2025, relatos de funcionários indicam que o ministro continuou a frequentar o local com familiares, inclusive durante datas festivas, o que reforçou a percepção de proximidade com negócios que passaram por fundos investigados.
Viagem em jatinho gera questionamentos
Outro episódio que pesou contra o ministro foi uma viagem a Lima, no Peru, para acompanhar a final da Taça Libertadores da América. Toffoli utilizou um jatinho de um empresário, no qual também viajava um advogado ligado a um dos executivos do Banco Master investigados pela Polícia Federal.
A revelação do episódio ocorreu no início da atuação do ministro no caso e foi recebida com desconforto por integrantes da Corte, especialmente pelo contexto em que se dava a apuração das irregularidades financeiras envolvendo o banco.
Pressão política e mira no Supremo
No Congresso, parlamentares da oposição afirmam ter reunido assinaturas suficientes para a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar o caso Master. Embora a criação da comissão dependa do presidente do Senado, o STF passou a ser visto como um dos alvos centrais da ofensiva política.
Representações já foram encaminhadas à Procuradoria-Geral da República pedindo a análise de eventual conflito de interesses ou suspeição de Toffoli. Internamente, porém, a avaliação predominante é de que um pedido formal de afastamento poderia abrir espaço para questionamentos sobre a validade das provas já produzidas, além de agravar o embate institucional entre a PGR e o Supremo.
Bastidores do STF e alternativas em discussão
Dentro da Corte, ministros reconhecem, em caráter reservado, o desgaste provocado pela condução do caso. Entre as possibilidades debatidas está o envio do processo à primeira instância, caso se conclua que não há mais justificativa para mantê-lo no STF em razão do foro privilegiado.
Outra alternativa ganhou força nos bastidores: a aprovação de um código de conduta para ministros de tribunais superiores. A iniciativa, que tem contado com a articulação do presidente do STF, Edson Fachin, é vista como uma resposta institucional às críticas envolvendo o caso Master.
Apesar do incômodo generalizado, a avaliação majoritária no Supremo é de que Toffoli dificilmente se declarará impedido ou suspeito por iniciativa própria. O cenário considerado mais provável, ao menos no curto prazo, é a continuidade da tramitação do processo sob sua relatoria, na expectativa de que a pressão diminua com o avanço das investigações.
O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025, após a identificação de irregularidades em suas operações. A Polícia Federal segue apurando indícios de fraudes e crimes financeiros envolvendo a instituição e seus dirigentes, em um caso que continua a reverberar não apenas no sistema financeiro, mas também no coração do Judiciário brasileiro.



