Depoimentos, vínculos familiares e uso de estrutura de segurança colocam ministro no centro de questionamentos sobre condução da Operação Compliance Zero
Pressão cresce nos bastidores do Supremo
Novos fatos relacionados à Operação Compliance Zero intensificaram o desgaste do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli na condução das investigações sobre o Banco Master. Embora tenha obtido um alívio momentâneo após o procurador-geral da República, Paulo Gonet, arquivar pedido de parlamentares da oposição para seu afastamento da relatoria, o cenário segue indefinido.
A expectativa no meio jurídico é que os depoimentos previstos para a próxima semana e a análise do material já reunido indiquem se o processo continuará sob responsabilidade do STF ou se retornará à primeira instância. Nos bastidores, essa segunda alternativa é vista como uma forma de reduzir a tensão institucional provocada por relações indiretas entre pessoas do círculo familiar do ministro e personagens ligados ao banco investigado.
Relações familiares e resort entram na mira
Entre os pontos que geram desconforto estão informações sobre vínculos empresariais envolvendo irmãos de Toffoli e o pastor Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Registros indicam que Zettel, por meio de um fundo de investimento administrado pela gestora Reag, adquiriu em 2021 parte da participação de familiares do ministro no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). À época, a fatia negociada era avaliada em R$ 6,6 milhões.
A empresa Maridt, ligada aos irmãos de Toffoli, passou a ter o fundo associado a Zettel como sócio relevante. Um dos irmãos administrava o empreendimento naquele período. O endereço da companhia, conforme dados da Junta Comercial, coincidia com o da residência de um dos familiares do magistrado.
Embora Toffoli não figure formalmente como sócio, ele é apontado como frequentador do local. A propriedade foi posteriormente vendida ao advogado Paulo Humberto Costa, que atua para a J&F, holding que controla a JBS.

Uso de seguranças e viagens ao local
Outro elemento que ampliou a repercussão foi a revelação de que equipes de segurança vinculadas ao Judiciário realizaram deslocamentos à região do resort em períodos de feriados, recessos e fins de semana prolongados. Registros apontam 128 dias de diárias entre 2022 e 2025, com custo aproximado de R$ 460 mil. Parte dessas viagens teria ocorrido após a mudança de controle do empreendimento.
Os dados, baseados em registros do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, indicam apoio à segurança de autoridades, procedimento que depende de solicitação do STF, embora não identifique nominalmente o ministro atendido em cada caso.
Viagens e encontros com empresários
Reportagens também trouxeram à tona registros de encontros de Toffoli com empresários no resort, incluindo a presença do banqueiro André Esteves e do industrial Luiz Oswaldo Pastore. Este último já havia sido citado em outro episódio envolvendo o ministro, relacionado a uma viagem ao Peru para assistir à final da Copa Libertadores, quando Toffoli teria utilizado aeronave do empresário.
Na ocasião, também estava a bordo o advogado Augusto Arruda Botelho, que atua na defesa de um ex-diretor do Banco Master investigado na mesma operação da Polícia Federal.
Debate sobre foro e destino do processo
A definição sobre o foro adequado das investigações é outro ponto sensível. Toffoli levou o caso ao STF ao mencionar a existência de autoridade com foro privilegiado e impôs sigilo às apurações. Integrantes da Corte avaliam que os novos depoimentos podem influenciar a decisão sobre manter o processo no Supremo ou remetê-lo à primeira instância.
A defesa de Daniel Vorcaro entende que a permanência no STF garantiria maior previsibilidade jurídica, enquanto a volta ao primeiro grau poderia resultar, na avaliação dos advogados, em decisões precipitadas.
Nota do STF e silêncio dos citados
Em manifestação oficial, o STF afirmou que a Secretaria de Polícia Judicial é responsável pela segurança dos ministros, com avaliação de risco que não se limita a agendas institucionais. Segundo a Corte, o procedimento segue padrões adotados internacionalmente para autoridades públicas.
Toffoli não comentou o caso. O BTG Pactual informou que não se manifestaria, e Luiz Oswaldo Pastore não respondeu aos contatos.



