Frustração com adiamento do tratado comercial e divergências políticas entre Brasil e Argentina marcam encontro em Foz do Iguaçu e levantam dúvidas sobre os rumos do bloco
A 67ª Cúpula do Mercosul, realizada neste sábado (20) em Foz do Iguaçu, terminou sob um ambiente de expectativa frustrada. O encontro havia sido planejado para coroar a assinatura do acordo de livre comércio entre o bloco sul-americano e a União Europeia, mas o desfecho novamente foi adiado, reforçando a sensação de impasse em torno do tratado.
Participaram da reunião o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os presidentes da Argentina, Javier Milei, do Uruguai, Yamandú Orsi, e do Paraguai, Santiago Peña, que assumiu a presidência temporária do Mercosul. Também estiveram presentes representantes da Bolívia — país que ingressou oficialmente no bloco em 2024 e ainda adapta sua legislação às normas regionais — e delegações de países associados.
Venezuela amplia fissuras políticas no bloco
Além do adiamento do acordo com a União Europeia, agora prometido para janeiro, o encontro evidenciou divergências políticas profundas entre Brasil e Argentina, especialmente em relação à situação da Venezuela. O tema ganhou peso diante do aumento das tensões internacionais e do endurecimento da postura dos Estados Unidos.
Na abertura da cúpula, Lula afirmou que uma eventual ação militar contra a Venezuela representaria uma “catástrofe humanitária” e um precedente perigoso no cenário internacional. Milei, por sua vez, classificou o governo venezuelano como uma “ditadura atroz e inumana” e elogiou a pressão exercida pelos Estados Unidos e pelo presidente Donald Trump.
Apesar do embate público, a declaração final do encontro evitou qualquer menção direta à Venezuela, suspensa do Mercosul desde 2017 por violar a cláusula democrática do bloco.
Acordo com a UE e impactos econômicos
A ausência de um consenso com a União Europeia levanta questionamentos sobre os custos econômicos da demora. Especialistas avaliam que o agronegócio brasileiro tende a ser menos afetado, já que mantém forte presença nos mercados asiáticos. A indústria, no entanto, pode perder oportunidades estratégicas de integração a cadeias globais de valor e de atração de investimentos externos no longo prazo.
Projeções do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio indicam que, em um horizonte de 20 anos, o setor industrial seria o maior beneficiado pelo acordo, com crescimento expressivo das exportações para o mercado europeu. Serviços e agronegócio também teriam ganhos, ainda que em menor escala.
Além do aspecto comercial, analistas apontam que o tratado com a UE poderia reduzir a dependência excessiva do Mercosul em relação à China e funcionar como contrapeso a políticas protecionistas dos Estados Unidos.
Novos mercados entram no radar
Mesmo diante das dificuldades com a União Europeia, o Mercosul vem buscando diversificar suas parcerias comerciais. Nos últimos anos, o bloco avançou em acordos com Singapura e com os países da EFTA, além de manter negociações em andamento com Emirados Árabes Unidos, Canadá e Índia.
Há ainda diálogos iniciais com países asiáticos como Japão, Indonésia e Vietnã. O interesse se explica por diferentes fatores, que vão desde o crescimento da classe média no Sudeste Asiático até a busca de alternativas estratégicas diante da rivalidade entre Estados Unidos e China.
Essas negociações, contudo, enfrentam obstáculos internos e externos, como resistências políticas domésticas e eventuais tensões geopolíticas que podem alterar prioridades regionais.
Comércio intrabloco segue como desafio
Outro ponto recorrente nas discussões foi a baixa intensidade do comércio entre os próprios países do Mercosul. Atualmente, as trocas intrabloco representam cerca de 11% do comércio total da região, percentual bem inferior ao observado na União Europeia e em outros blocos econômicos.
Durante a presidência temporária do Brasil, iniciativas foram lançadas para estimular esse comércio, com foco no apoio a micro e pequenas empresas e na inclusão de negócios liderados por mulheres. A avaliação é que há espaço significativo para aprofundar a integração econômica regional, independentemente do avanço de acordos externos.
Cooperação em segurança avança
Além da agenda comercial, o Mercosul aprovou a criação de uma comissão voltada ao combate ao crime organizado transnacional. O novo organismo reunirá representantes dos ministérios da Justiça e da Segurança Pública, dos ministérios públicos e das forças policiais dos países-membros, sinalizando uma ampliação da cooperação regional em temas de segurança.
O balanço da cúpula indica que, embora o Mercosul siga ativo na busca por novos mercados e mecanismos de cooperação, as divergências políticas internas e o impasse com a União Europeia continuam a limitar o alcance e a ambição do bloco no cenário internacional.



