Por Wilton Emiliano Pinto *
Chega um tempo da vida em que a mudança não faz barulho.
Ela não chega como ruptura.
Chega como silêncio.
Não é que faltem coisas.
É que começa a faltar sentido.
Eu vivi como quase todo mundo vive, mas do meu jeito, com as estradas que pisei. Saí da roça ainda menino, trazendo nos olhos a cor da terra de Estulânia, o cheiro do curral ao amanhecer e o canto do galo rasgando a madrugada. Naquele tempo, o mundo parecia caber entre a cerca da fazenda e o caminho da escola.
Cresci vendo meu pai tirar leite, sentindo o gosto do leite morno na caneca, acreditando que a vida cabia no que eu conhecia. Depois vieram as cidades. Vieram os estudos, o trabalho, as responsabilidades que não pedem licença para chegar.
Construí família. Criei filhos. Honrei compromissos. Trabalhei em estradas de verdade e em estradas da vida, abrindo caminhos, resolvendo problemas, seguindo em frente porque era isso que precisava ser feito.
E eu fiz.
Fiz com vontade.
Com seriedade.
Com o coração de quem sabe que não pode falhar.
A vida seguiu seu curso: casamento, profissão, filhos crescendo, contas pagas, perdas que doeram fundo, alegrias que aqueceram a alma. Nada fora do roteiro de uma vida digna. Nada que eu não tenha aceitado como parte da caminhada.
E, ainda assim, em certo ponto da estrada, senti um cansaço diferente.
Não era só do corpo, embora o corpo também traga suas marcas. Era um cansaço mais fundo. A sensação de ter andado léguas e mais léguas… e, de repente, parar e se perguntar para onde ir agora.
As coisas continuavam funcionando.
A rotina seguia organizada.
Mas o entusiasmo diminuía.
Certas conversas já não me prendiam. Algumas preocupações pareciam pequenas demais diante de tudo o que já vivi: rios atravessados, despedidas enfrentadas, recomeços impostos pela vida.
E uma pergunta começou a surgir, mansa, mas insistente:
“É só isso?”
Ela aparecia no silêncio da manhã, no café tomado sem pressa, no fim de tarde em que o céu muda de cor devagar. Não era revolta. Era reflexão. Era olhar para a própria história e perguntar:
Depois de tudo… o que realmente importa agora?
Percebi que eu não queria mais crescer para fora. Já tinha construído o que era possível. O que nasceu em mim foi outra necessidade, mais quieta, mais funda: aproximar-me de mim mesmo.
Ao longo dos anos, fui muitas coisas: filho de lavrador, estudante sonhador, trabalhador de estrada, marido, pai, amigo, apoio para tantos. Cumpri cada papel com dedicação. Mas, no meio de tantas funções, deixei para depois uma companhia essencial: a minha própria.
Quando aprendi a ficar em silêncio, vieram lembranças antigas. A escola simples, a poeira vermelha nos pés, as vozes que já se calaram, os rostos que hoje moram só na memória. Vieram também escolhas feitas na pressa, palavras engolidas, sentimentos guardados porque a vida não parava para explicações.
Nada disso era confortável.
Mas tudo era verdadeiro.
Aos poucos, entendi que não precisava mudar de vida. Precisava mudar o jeito de estar nela.
Continuei vivendo meus dias comuns, mas com outro olhar. Passei a me perguntar, em silêncio:
“Isso ainda combina com quem eu sou hoje?”
“Isso me traz paz ou só me ocupa por dentro?”
Algumas preocupações perderam importância. Certas obrigações deixaram de ser automáticas. Pequenos gestos ganharam valor: contar uma história antiga, ouvir com atenção, lembrar dos que vieram antes, olhar o céu como quando eu era menino na fazenda.
Nada espetacular aconteceu do lado de fora.
Mas, por dentro, o ar começou a circular melhor.
Compreendi que envelhecer não é apenas acumular anos. É retirar excessos. É deixar cair pressas que já não fazem sentido. É aceitar que nem toda discussão precisa ser vencida, nem todo problema é nosso para carregar.
E que existe uma forma de presença que só o tempo ensina: estar inteiro onde se está.
Hoje entendo que passei a vida inteira abrindo caminhos pelo mundo, mas o mais importante deles não estava em mapa nenhum.
Estava aqui dentro.
Porque o lugar mais distante onde alguém pode se perder
é longe de si mesmo.
E o retorno mais bonito da vida
não é voltar à fazenda que já não existe,
nem às estradas que ficaram para trás.
É, finalmente,
voltar para casa
dentro da própria alma.




