Se você costuma ler apenas as primeiras linhas de um texto, faço um convite sincero: siga comigo até o fim.
Talvez encontre aqui algo que também lhe pertença.
Quando penso na infância, uma cena sempre retorna.
Nítida. Viva.
Como fotografia antiga que o tempo não conseguiu apagar.
Papai, mamãe, meus irmãos.
Todos sentados num banco de madeira, na sala simples da casa da fazenda, em Estulânia.
No centro, um rádio.
Pequeno. Valioso.
Quase mágico para o final dos anos 1940.
Funcionava a bateria, recarregada por um engenhoso sistema criado por papai, usando a roda d’água do monjolo.Nossa casa era a única da região a ter aquele aparelho.
Por isso, aos fins de semana, os vizinhos vinham.
Vinham ouvir notícias. Músicas.
Vozes que pareciam atravessar o mundo até chegar ali.
Quando o acordeom tocava, mamãe se iluminava.
Ela dizia “sanfona”, com carinho.
E sorria.
Sem perceber, aprendíamos algo essencial:
a alegria mora nos detalhes.
Hoje, ao revisitar essas lembranças, uma palavra se impõe com delicadeza:
gratidão.
Não pelo rádio.
Mas pelo que ele representava.
União.
Presença.
Conversa sem pressa.
Riso solto.
Talvez muitos não tivessem aquele aconchego, mesmo simples.
Nós tínhamos.
Ali, naquela sala, celebrava-se a vida.
Escrevo agora, no início de 2026, como quem olha o próprio caminho com calma.
Não para julgar.
Mas para compreender.
O tempo passou.
Passou rápido.
E deixou marcas, aprendizados e saudades.
Mudei ao longo dos anos.
Mudei o modo de pensar.
De sentir.
De enxergar o mundo.
Aprendi que as perguntas mais importantes não exigem respostas imediatas.
Elas nos acompanham.
Quem sou?
O que fiz do tempo que me foi dado?
O que deixei em quem caminhou comigo?
Descobri algo importante sobre mim:
não guardo mágoas.
Guardo o essencial.
Aquilo que me fez bem.
Pessoas.
Momentos.
Afetos.
Talvez esse seja um dos meus maiores acertos.
Com o tempo, entendi que nada vem pronto.
A vida é construção diária.
Aprende-se vivendo.
Errando.
Tentando outra vez.
Não existe linha de chegada.
Existe continuidade.
Hoje, aos 81 anos, não carrego pressa.
Carrego vontade.
Vontade de continuar aprendendo.
De escrever.
De observar.
De ouvir.
De sentir.
Escrever tornou-se um cuidado comigo mesmo.
Cada crônica é uma conversa silenciosa.
Um encontro entre o que fui,
o que sou
e o que ainda posso ser.
Não escrevo para ensinar.
Escrevo para compartilhar humanidade.
Quando olho para trás, percebo:
a maior riqueza não está nas conquistas materiais.
Está nos vínculos.
Na família.
Nas amizades.
Nas histórias partilhadas.
Isso sustenta.
Se muito do tempo já ficou para trás, o que importa é como sigo daqui para frente.
Com mais serenidade.
Mais empatia.
Mais aceitação.
E, sobretudo, com esperança.
O novo ano se apresenta como sempre fez:
oferecendo mais uma oportunidade.
Não de recomeçar do zero.
Mas de continuar melhor.
No fim, desejo apenas isso:
olhar para trás, sorrir com ternura
e dizer, com verdade:
valeu a pena.




