Fala do premiê canadense sobre fim da ordem global baseada em regras intensifica atrito com Washington e amplia crise diplomática entre vizinhos históricos
A relação entre Estados Unidos e Canadá ganhou um novo capítulo de tensão depois que o presidente Donald Trump retirou o convite feito ao primeiro-ministro Mark Carney para integrar o chamado Conselho da Paz, iniciativa defendida pela Casa Branca como um fórum internacional voltado à mediação de conflitos globais. A decisão veio após um discurso contundente de Carney no Fórum Econômico Mundial, em Davos, no qual o líder canadense afirmou que a ordem internacional baseada em regras estaria chegando ao fim.
Em publicação na rede Truth Social, Trump formalizou o gesto de ruptura. No texto, afirmou que o convite do Canadá para compor o grupo de líderes havia sido cancelado e descreveu o conselho como “o mais prestigiado já reunido”. O presidente americano não detalhou os motivos da decisão. A Casa Branca evitou comentar o caso, e o gabinete de Carney não se manifestou de imediato.
A retirada do convite é vista como mais um sinal da escalada verbal entre os dois líderes, que trocaram críticas públicas durante o encontro de Davos, na Suíça.
Proposta de novo organismo internacional
Segundo a administração americana, convites foram enviados a cerca de 50 países para integrar o Conselho da Paz, estrutura que Washington projeta como um mecanismo amplo de governança internacional, com ambições comparáveis às da Organização das Nações Unidas. Mais de duas dezenas de nações teriam sinalizado adesão, enquanto aliados tradicionais dos EUA, sobretudo europeus, adotaram cautela e pediram tempo para analisar a proposta.
O Canadá havia aceitado participar em princípio, mas indicou que não pagaria US$ 1 bilhão por uma cadeira permanente no órgão. Carney também condicionou o engajamento canadense à retomada de um “fluxo completo” de ajuda humanitária para Gaza.
Discurso que acirrou os ânimos
A fala de Carney em Davos, dias antes da decisão de Trump, foi interpretada como um marco do evento. Sem citar diretamente os Estados Unidos, o premiê canadense defendeu maior coordenação entre potências médias diante da rivalidade entre grandes nações.
“As potências médias devem agir juntas porque, se não estamos na mesa, estamos no cardápio”, afirmou. Ele sustentou que países de porte intermediário precisam escolher entre disputar favores das grandes potências ou se unir para construir uma alternativa com impacto próprio.
Carney também descreveu o cenário global como um sistema de rivalidade intensificada, no qual a integração econômica pode ser usada como instrumento de coerção, e avaliou que a ordem internacional anterior “não vai voltar”. O discurso foi amplamente repercutido e alcançou grande audiência nas plataformas digitais.
Réplica de Trump e troca de acusações
No dia seguinte, Trump reagiu durante sua própria participação em Davos. Diante da plateia, afirmou que o Canadá “vive por causa dos Estados Unidos” e criticou o que considerou falta de gratidão do governo canadense. “Eles recebem muitos benefícios de nós”, declarou.
De volta ao Canadá, Carney respondeu nas redes sociais, destacando a parceria histórica entre os dois países nas áreas econômica, de segurança e cultural, mas rejeitando a ideia de dependência. “O Canadá prospera porque somos canadenses”, escreveu.
Em outro discurso, o premiê reforçou o contraste político com Washington ao defender que “outro caminho é possível”, com foco em progresso e justiça, e não em autoritarismo ou exclusão.
Relação bilateral sob pressão
Desde o retorno de Trump à Casa Branca, as relações bilaterais têm sido marcadas por atritos. O presidente americano impôs tarifas a produtos canadenses e chegou a mencionar a possibilidade de usar “força econômica” para integrar o país aos Estados Unidos como um 51º estado — declarações que geraram forte reação no Canadá.
O endurecimento do tom abriu a mais profunda divisão entre os vizinhos em décadas, segundo analistas. Em meio às tensões, Carney chegou a afirmar que pediu desculpas a Trump após a veiculação, nos EUA, de um anúncio canadense crítico às tarifas, episódio que teria afetado negociações comerciais.
Horas antes do discurso do premiê em Davos, Trump ainda publicou nas redes sociais uma imagem manipulada de um mapa com a bandeira americana sobreposta ao território canadense, gesto interpretado como provocação adicional em um momento já delicado da relação bilateral.



