Publicação com linguagem agressiva intensifica tensão e reforça ameaça de ataques à infraestrutura iraniana
Mensagem de Trump mistura insultos e ultimato direto a Teerã
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou publicamente sua insatisfação com a manutenção do bloqueio do Estreito de Ormuz em uma publicação feita neste domingo (05/04). Em tom agressivo, o republicano voltou a ameaçar o Irã, indicando a possibilidade de atingir estruturas civis caso a rota marítima não seja reaberta.
“Terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte, tudo de uma vez, no Irã. Não haverá nada igual!!! Abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês viverão num verdadeiro inferno – Fiquem atentos! Louvado seja Alá. Presidente DONALD J. TRUMP”, escreveu o mandatário na plataforma Truth Social.
Prazo militar e articulação com Israel elevam risco de escalada
No sábado, Trump já havia estabelecido um prazo de 48 horas para que o Irã retomasse integralmente a navegação no Estreito de Ormuz. Caso contrário, segundo ele, forças americanas poderiam iniciar uma ofensiva militar — possibilidade que, pelo cronograma, se aproximaria da segunda-feira (06/04).
Relatos da imprensa norte-americana indicam que Israel, aliado estratégico dos Estados Unidos no atual conflito, aguarda autorização de Washington para lançar ataques próprios, com foco em instalações energéticas iranianas.
O presidente já havia recorrido anteriormente a ultimatos semelhantes, reforçando a estratégia de pressão direta sobre Teerã.
Estreito de Ormuz no centro da crise global

O Estreito de Ormuz é considerado um dos pontos mais sensíveis do comércio global de energia, responsável pelo escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial. O bloqueio foi imposto pelo Irã após o início das hostilidades com os Estados Unidos e Israel.
Desde então, o trânsito marítimo tem sido restrito, com liberação seletiva para embarcações de países considerados aliados — em alguns casos, segundo relatos, mediante compensações financeiras.
A redução do fluxo na região já pressiona os preços internacionais de petróleo e gás, além de afetar cadeias produtivas, incluindo fertilizantes. Países asiáticos, altamente dependentes da rota, têm adotado medidas emergenciais para conter o consumo energético, como subsídios ao transporte público e decretos de feriados adicionais.
Especialistas apontam erro de cálculo estratégico dos EUA
Analistas militares avaliam que Washington pode ter subestimado a capacidade de reação iraniana, especialmente no que diz respeito ao fechamento do estreito.
Inicialmente, os objetivos declarados pelos Estados Unidos incluíam enfraquecer o aparato militar e nuclear do Irã e até promover uma eventual mudança de regime. No entanto, o foco estratégico passou a ser a reabertura da via marítima — um retorno ao cenário anterior ao conflito.
Para o cientista político Oliver Stuenkel, a retórica adotada por Trump indica perda de controle da situação. “A mensagem de Trump — ‘Abram a porra do estreito’ — provavelmente busca intimidar os iranianos, mas também revela frustração e desespero. Não é o tipo de linguagem de quem tem a situação sob controle”, afirmou na rede X.
Na mesma linha, o analista Dennis Citrinowicz avaliou que a publicação reflete dificuldades estratégicas. “[Trump] parece incapaz de conciliar a discrepância entre as conquistas objetivas no terreno e sua limitada capacidade de impor sua vontade no que diz respeito ao Estreito de Ormuz. E o problema só está piorando. É evidente que os iranianos não vão recuar. (…) Mas se Trump intensificar o conflito, o Irã responderá, e os danos à economia global poderão ser sem precedentes, muito além do aumento dos preços do petróleo.”
Possíveis impactos humanitários e econômicos ampliam preocupação
A eventual ofensiva contra usinas de energia iranianas pode comprometer diretamente o abastecimento de milhões de pessoas, com efeitos em cadeia sobre serviços essenciais. A interrupção do fornecimento elétrico afetaria sistemas de água, aquecimento, refrigeração, além de setores industriais e financeiros.
O Irã, por sua vez, sinalizou que poderá retaliar mirando instalações de dessalinização em países do Golfo. Episódios recentes no Bahrein e no Kuwait, envolvendo danos a estruturas desse tipo, são interpretados como alertas preliminares.
Uma escalada nesse sentido colocaria em risco o fornecimento de água em uma das regiões mais dependentes da dessalinização no mundo.
Além disso, especialistas em direito internacional humanitário alertam que ataques deliberados a infraestrutura civil, como usinas de energia, podem configurar violação das normas internacionais e, em determinadas circunstâncias, caracterizar crime de guerra.
(Com DW)

