Parlamento Europeu suspende ratificação de tratado com os EUA, enquanto líderes europeus prometem reação firme às ameaças tarifárias do presidente americano
A crise diplomática entre os Estados Unidos e seus aliados europeus ganhou novos contornos nesta terça-feira, após o presidente Donald Trump intensificar a pressão para que a Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca, seja incorporada ao território americano. A resposta do Parlamento Europeu veio em forma de retaliação política: a suspensão da ratificação do acordo comercial firmado com Washington em julho, que previa a retirada de tarifas sobre produtos industriais dos EUA.
O tratado deveria entrar em vigor no primeiro semestre, após aprovação formal das instâncias europeias. Com o bloqueio, deputados do bloco buscam sinalizar descontentamento com a estratégia de Trump, que condiciona o avanço das relações comerciais à aceitação de sua ofensiva territorial.
Tarifa como instrumento de pressão
Nos últimos dias, Trump anunciou a aplicação de tarifas de 10% a oito países europeus a partir de 1º de fevereiro, com possibilidade de elevação para 25% em junho, caso não haja apoio à anexação da Groenlândia. A medida provocou reação imediata em Bruxelas, onde já se discute a imposição de tarifas retaliatórias que podem alcançar 93 bilhões de euros, além de restrições ao acesso de empresas americanas ao mercado europeu.
“É uma alavanca extremamente poderosa. Não creio que as empresas aceitariam abrir mão do mercado europeu”, afirmou Valerie Hayer, presidente do grupo centrista Renovação, ao comentar a decisão do Parlamento.
Postagens, provocações e recados diretos
Às vésperas de sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Trump voltou a provocar os aliados por meio de redes sociais. Publicou imagens com a bandeira americana sobre a Groenlândia, compartilhou mensagens privadas do presidente francês, Emmanuel Macron, e afirmou que os líderes europeus “não oferecerão muita resistência” aos seus planos.
Em entrevista, o presidente americano reforçou que não pretende negociar. “Eles não oferecerão muita resistência. Temos que conseguir. Eles têm que aceitar”, declarou.
Trump também revelou ter conversado com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, a quem teria dito que a Groenlândia é “imprescindível para a segurança nacional e mundial”. O argumento tem sido repetido com frequência para justificar a ofensiva diplomática.
Macron reage e acusa EUA de subordinar a Europa
Entre os líderes mais críticos, Macron endureceu o tom. A França enviou militares à Groenlândia em apoio às operações lideradas pela Dinamarca, gesto interpretado como tentativa de dissuasão. O movimento colocou Paris entre os países alvo das novas tarifas anunciadas por Trump.
Em discurso em Davos, o presidente francês acusou os Estados Unidos de buscar a subordinação da Europa por meio de políticas comerciais agressivas.
“As tarifas, somadas a um acúmulo interminável de novas medidas, são fundamentalmente inaceitáveis, sobretudo quando usadas para pressionar a soberania territorial”, afirmou.
Imagens de IA ampliam desconforto
Durante a madrugada, Trump publicou duas imagens geradas por inteligência artificial. Em uma delas, líderes europeus aparecem sentados diante dele enquanto um mapa exibe Groenlândia, Canadá e Venezuela com bandeiras americanas. Em outra, o presidente surge ao lado do vice J.D. Vance e do secretário de Estado, Marco Rubio, cravando uma bandeira dos EUA no solo congelado da ilha, diante de uma placa que diz: “Groenlândia — território americano desde 2026”.
As imagens circularam amplamente entre os participantes do fórum e ampliaram o desconforto entre autoridades europeias.
Resposta firme da Comissão Europeia
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu uma reação “firme, unida e proporcional” às ameaças do presidente americano. Segundo ela, uma escalada de retaliações só favoreceria adversários estratégicos comuns.
Von der Leyen também alertou que tarifas punitivas contra aliados seriam um erro e anunciou planos para ampliar investimentos europeus na Groenlândia, mantendo, ao mesmo tempo, canais de cooperação com Washington.
“Estamos trabalhando em um aumento significativo dos investimentos europeus na Groenlândia. Atuaremos com os Estados Unidos e outros parceiros em prol da segurança no Ártico”, afirmou.
Tesouro tenta reduzir a tensão
No mesmo evento, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, adotou tom conciliador. Ele pediu calma aos participantes e sugeriu que as declarações de Trump fossem interpretadas com cautela.
“Vamos relaxar, respirar fundo e deixar as coisas acontecerem”, disse, ao tentar diferenciar as tarifas relacionadas à Groenlândia de outras disputas comerciais em curso.
Apesar do esforço de moderação, a percepção entre diplomatas e analistas em Davos é de que a crise entre os Estados Unidos e a Europa já se configura como a mais grave em décadas, colocando em xeque a estabilidade da aliança transatlântica em um momento de forte tensão geopolítica global.
(Com AFP e NYT)

