Críticas do ex-presidente contrastam com repercussão positiva nas redes e consagração do cantor porto-riquenho no maior palco da TV americana
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu com dureza à apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, realizada neste domingo, na Califórnia. Ausente do estádio, o republicano recorreu às redes sociais para desqualificar o show do astro do reggaeton, que se destacou pela valorização da cultura latina e por referências à identidade porto-riquenha.
Em publicação na Truth Social, feita logo após a performance, Trump classificou o espetáculo como “uma afronta à grandeza americana” e ironizou o uso do espanhol. “Ninguém entendeu o que esse cara estava dizendo”, escreveu. A reação do público, no entanto, seguiu direção oposta: Bad Bunny figurou entre os assuntos mais comentados do X (antigo Twitter), com ampla adesão e elogios à apresentação.
Uma celebração sem discursos explícitos
Embora tenha evitado mensagens políticas diretas, o cantor transformou o intervalo do evento esportivo mais assistido dos Estados Unidos em uma celebração da cultura latina. O show começou às 22h19 no horário de Brasília, no Levi’s Stadium, em Santa Clara, onde New England Patriots e Seattle Seahawks disputavam o título.
Com um palco montado no centro do estádio e cenografia que remetia a uma plantação — referência às origens do reggaeton — Benito Antonio Martínez Ocasio abriu a apresentação com “Tití me preguntó” e “Solita”. A narrativa visual e musical percorreu os principais momentos de seus dez anos de carreira, combinando dança, recursos cinematográficos e uma forte presença feminina no balé.
Pontes entre gerações da música latina
Ao longo do espetáculo, Bad Bunny homenageou pioneiros do gênero, como Tego Calderón, e evocou “Gasolina”, de Daddy Yankee, marco inicial da popularização global do reggaeton. Em seguida, dividiu o palco com Lady Gaga, que surpreendeu ao interpretar uma versão em salsa de “Die with a smile”, em um figurino elegante e com desenvoltura de crooner latina.
Canções como “Baile inolvidable” e “Nuevayol” aproximaram as raízes musicais de Porto Rico da estética contemporânea. O repertório também incluiu faixas de Debí tirar más fotos (2025), álbum que lhe rendeu, na semana passada, o Grammy de álbum do ano — a primeira vez que um trabalho integralmente em espanhol conquistou o principal prêmio da indústria fonográfica americana.
Porto Rico no centro do palco
Artista mais ouvido do mundo no Spotify em 2025 — posição que ocupa pela quarta vez desde 2020 —, Bad Bunny usou os cerca de 13 minutos de apresentação para colocar Porto Rico no centro do maior espetáculo televisivo dos EUA. A ilha caribenha, com pouco mais de três milhões de habitantes, é um “território não incorporado” dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Hispano-Americana, em 1898.
O simbolismo ficou ainda mais evidente quando o cantor convidou Ricky Martin para interpretar “Lo que le pasó a Hawaii”, uma das faixas mais críticas de seu álbum recente. O gesto soou como reconhecimento ao artista que, desde os tempos do Menudo, abriu caminho para o sucesso internacional de músicos porto-riquenhos.
Mensagem final de união
Em uma das cenas mais comentadas, Bad Bunny entregou a um menino o Grammy conquistado por Debí tirar más fotos, disco descrito por críticos como uma “carta de amor a Porto Rico”. A apresentação contou ainda com participações de destaque do ator Pedro Pascal e das cantoras Cardi B e Karol G, todos de origem latina.
No encerramento, o artista pediu que Deus abençoasse a América — “e os países que a compõem”, Brasil incluído. No telão, a frase dita por ele na cerimônia do Grammy, “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, foi acompanhada por um desfile de bandeiras, reforçando a mensagem de união em um contexto global marcado por polarizações e violência.
Em meio à festa e às controvérsias políticas, Bad Bunny deixou claro, com elegância e precisão, que sua ascensão não é fruto do acaso, mas de uma construção artística que dialoga com identidade, memória e alcance global.
(Com AFP)


