Presidente dos EUA defende anexação do território por razões estratégicas, enquanto Congresso tenta conter escalada diplomática e militar
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a intensificar a pressão sobre a Dinamarca ao afirmar, na sexta-feira, que poderá impor tarifas comerciais a países que se oponham às suas exigências relacionadas à Groenlândia. A declaração ocorreu no mesmo dia em que uma delegação bipartidária do Congresso desembarcou em Copenhague para reafirmar o compromisso americano com seu aliado da OTAN e reduzir tensões em torno do território ártico.
Trump tem manifestado interesse pela Groenlândia desde seu primeiro mandato. Agora, em seu segundo período à frente da Casa Branca, o presidente reforça o discurso de que a anexação do território autônomo — que integra o Reino da Dinamarca — seria essencial para a segurança nacional dos Estados Unidos.
Segurança nacional no centro do discurso
Durante uma mesa-redonda sobre saúde rural, na Casa Branca, Trump afirmou que a localização estratégica da Groenlândia seria indispensável para o sistema de defesa antimísseis Golden Dome, projeto que pretende implantar no Ártico.
“Posso impor tarifas a países se eles não concordarem com a Groenlândia, porque precisamos da Groenlândia para a segurança nacional”, disse o presidente.
A Casa Branca não comentou oficialmente as declarações. Já o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou à CNBC que o uso de tarifas como instrumento geopolítico faz parte de uma tradição histórica da política externa americana. Segundo ele, presidentes recorrem há décadas a sanções e impostos comerciais para alcançar objetivos estratégicos.
Reação da Dinamarca e da Groenlândia
Na quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, esteve em Washington para reuniões com autoridades do governo Trump. Segundo ele, as conversas foram “francas, mas construtivas”, embora persista um “desacordo fundamental” entre as partes.
Em resposta às preocupações levantadas por Trump, Dinamarca e Groenlândia anunciaram que irão ampliar a presença militar na região em cooperação com aliados da OTAN.
De acordo com um diplomata dinamarquês, que falou sob anonimato, os Estados Unidos não apresentaram proposta formal de compra da Groenlândia nem planos concretos para ampliar sua presença militar no território. A pauta ficou concentrada, principalmente, em questões de segurança. Projetos de exploração de metais raros, mencionados anteriormente por Trump como motivação estratégica, também não foram discutidos.
Resistência interna nos Estados Unidos
A possibilidade de anexação da Groenlândia segue sendo amplamente rejeitada pela opinião pública americana e vem recebendo críticas de parlamentares de ambos os partidos.
Enquanto Trump reiterava as ameaças tarifárias, uma delegação do Congresso, liderada pelo senador Chris Coons, iniciou uma visita oficial a Copenhague com o objetivo de reforçar o apoio dos Estados Unidos ao Reino da Dinamarca. Segundo comunicado, a missão busca evidenciar o consenso bipartidário em defesa da aliança histórica entre os países.
O senador Thom Tillis afirmou que pretende lembrar aos dinamarqueses que o sistema político americano possui poderes independentes e que há preocupação crescente no Legislativo com a condução do tema. Um assessor do Senado classificou a viagem como uma “missão de tranquilização”, destinada a afastar a percepção de um conflito iminente.
Projetos para barrar qualquer ação militar
Embora muitos parlamentares concordem que o acesso à Groenlândia e ao Ártico é relevante para a segurança nacional, cresce o entendimento de que isso não exige controle territorial direto e que ameaças desse tipo podem fragilizar alianças estratégicas.
As senadoras Jeanne Shaheen e Lisa Murkowski apresentaram um projeto de lei para impedir o uso de recursos federais em qualquer operação que vise controlar o território de um aliado da OTAN. Murkowski afirmou que o Congresso vive um momento inédito, em que debates antes impensáveis passaram a integrar a agenda política.
O senador Ruben Gallego anunciou que poderá apresentar uma resolução para barrar o uso de força militar contra a Groenlândia. Já os deputados Ro Khanna e Don Bacon protocolaram uma resolução simbólica reafirmando o “respeito do governo dos EUA à soberania do Reino da Dinamarca, incluindo a Groenlândia”.
Aliança sob teste
A crise em torno da Groenlândia expõe um novo ponto de tensão na política externa americana. Embora o governo Trump sustente que a região é vital para a defesa dos Estados Unidos, parte expressiva do Congresso alerta que a retórica agressiva pode comprometer relações históricas que sustentam a própria arquitetura de segurança do Ocidente.
( Com The Washington Post )

