Moradores do bairro Parque Burnier, em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, afirmam ter sentido o chão trepidar na tarde de domingo (22), cerca de 24 horas antes do deslizamento de terra que deixou mortos, desaparecidos e dezenas de famílias desalojadas na região.
De acordo com o Corpo de Bombeiros, 28 mortes foram contabilizadas até o momento — 21 em Juiz de Fora e sete no município de Ubá. Já a Prefeitura de Juiz de Fora registrava, na noite de terça-feira, 22 óbitos na cidade.
No Parque Burnier, parte de uma rua cedeu, provocando o desabamento de aproximadamente 12 casas. O bairro concentra 20 pessoas desaparecidas, e as equipes seguem nas buscas por vítimas soterradas.
“Todo mundo sentiu o chão tremer”, relatam moradores
Cinco desaparecidos são da família de Mariana de Oliveira Silva, 40 anos. Entre eles estão uma criança e dois adolescentes. “Era um terreno com muitas casas. A casa de trás era uma quitinete que veio abaixo e levou todas as outras”, relatou. Segundo moradores, duas grandes pedras deslizaram e atingiram as residências. O impacto, aliado à força das chuvas acumuladas nos últimos dias, teria agravado o cenário.
Joice Silveira, 36, afirma que o bairro já vinha enfrentando dias consecutivos de chuva intensa. “Todo mundo do bairro sentiu o chão tremer no domingo. Por volta das 20h de segunda-feira ouvimos dois grandes estrondos. Quando saímos para a rua, vimos as casas caídas”, disse.
Alexandre Rangel, proprietário de um imóvel de quatro pavimentos na via afetada, contou que esteve no local durante a madrugada e percebeu o solo encharcado. “No terreno próximo passa um pequeno córrego. A casa está com água saindo do solo e o chão está movediço”, afirmou. As residências da área foram evacuadas preventivamente.
Operação de resgate e novos alertas
Retroescavadeiras atuam na retirada de lama e galhos nas ruas íngremes do bairro. Às 14h27 desta terça-feira, a Defesa Civil de Minas Gerais emitiu novo alerta de chuva intensa para a região, enviado por mensagem aos celulares. A vibração dos aparelhos gerou apreensão entre familiares que acompanham as buscas do Corpo de Bombeiros.
Rios que cortam o município seguem turvos e com grande volume de água. Nas áreas elevadas, é possível observar marcas abertas pela força dos deslizamentos.
Calamidade pública e apoio federal
Diante da dimensão dos danos, a prefeita Margarida Salomão (PT) decretou estado de calamidade pública ainda na madrugada de terça-feira. A medida foi reconhecida pelo governo federal.
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, informou que equipes da Defesa Civil Nacional foram deslocadas para atuar em conjunto com as autoridades locais.
Segundo a prefeita, o temporal provocou ao menos 20 soterramentos de imóveis, principalmente na região sudeste da cidade. A Defesa Civil registrou 251 ocorrências relacionadas às chuvas. Os desabrigados estão sendo acolhidos em três escolas municipais.
Risco geológico e ocupação irregular
Especialistas apontam que a configuração geográfica de Juiz de Fora contribui para a vulnerabilidade a desastres naturais. Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que o município combina morros que ultrapassam 100 metros de desnível com uma rede de drenagem volumosa.
“Há dois problemas simultâneos: o movimento de massa, com deslocamento de encostas, e o transbordamento de rios”, afirmou.
O vice-governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), reforçou que moradores que receberam alerta de risco devem deixar os imóveis imediatamente. Há previsão de chuva até sábado (28).
“É preciso enfrentar a questão da ocupação irregular no Brasil. Era previsível que algo assim pudesse acontecer, e é devastador pensar que há idosos e crianças soterrados”, declarou.
As buscas continuam sob risco de novos deslizamentos, enquanto autoridades monitoram as condições climáticas e estruturais da área afetada.
