Prisão do líder venezuelano pelos EUA contrasta com retórica de aliança entre Caracas e Moscou e reforça percepção de enfraquecimento da influência internacional da Rússia
Nicolás Maduro exaltou Vladimir Putin em maio de 2025, durante visita oficial a Moscou para as celebrações do Dia da Vitória, data simbólica da derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Na ocasião, classificou a Rússia como “uma potência fundamental da humanidade”, e os dois governos firmaram um acordo de cooperação bilateral. Meses depois, no entanto, o Kremlin assistiu sem reação concreta à operação americana que levou Maduro e sua esposa a Nova York, onde passaram a responder a acusações relacionadas ao narcotráfico.
Apoio político sem proteção efetiva
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia limitou-se a manifestar preocupação, defender a libertação do venezuelano e pedir a abertura de negociações entre Washington e Caracas. Desde a ação militar, realizada em 3 de janeiro, Putin não se pronunciou publicamente. O silêncio contrasta com o histórico de proximidade entre os dois líderes, evidenciado, por exemplo, por contatos diretos e gestos diplomáticos recentes, como o envio de cumprimentos oficiais de Ano Novo.
Maduro esteve entre os poucos chefes de Estado a apoiar Moscou em fevereiro de 2022, quando a Rússia reconheceu as regiões ucranianas de Donetsk e Lugansk como repúblicas autoproclamadas, às vésperas da ofensiva em larga escala contra a Ucrânia. Em 2018, a relação ganhou contornos militares com o envio de bombardeiros estratégicos russos Tu-160 à Venezuela, em exercícios interpretados como demonstração de respaldo ao governo chavista.
Apesar disso, o episódio expôs a incapacidade de Moscou de oferecer proteção real a um aliado estratégico. “O apoio russo à Venezuela sempre foi mais simbólico do que operacional”, avalia Neil Melvin, especialista do think tank britânico Royal United Services Institute (RUSI). Segundo ele, a Rússia não dispõe hoje de meios para confrontar uma intervenção militar dos Estados Unidos em seu entorno regional.
Reaproximação entre Moscou e Washington
Para o cientista político alemão Felix Riefer, autor de estudos sobre a política externa russa, a postura cautelosa do Kremlin era previsível. Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca e a retomada do diálogo entre Moscou e Washington, a Rússia passou a reagir com moderação às ações americanas na Venezuela. “Na prática, Moscou já havia se afastado de Maduro antes mesmo desse episódio”, afirma.
A guerra na Ucrânia é apontada como fator central dessa mudança. Com os Estados Unidos deixando de atuar exclusivamente como principal aliado de Kiev para assumir um papel de mediação, o Kremlin evita confrontos retóricos diretos com Washington. “Sem o conflito na Ucrânia, a resposta russa seria muito mais dura”, diz Melvin.
O especialista não vê impacto imediato do caso venezuelano no curso da guerra no Leste Europeu, mas alerta para possíveis desdobramentos se Trump avançar em pautas mais sensíveis, como a defesa da incorporação da Groenlândia — território dinamarquês e membro da Otan. Nesse cenário, avalia, a própria aliança militar ocidental poderia ser colocada em xeque.
Cautela e expectativas em Kiev
Em Kiev, autoridades acompanham os desdobramentos com atenção. O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, afirmou que o episódio demonstra como os Estados Unidos lidam com regimes autoritários e reiterou que seu governo não reconhece Maduro como presidente legítimo da Venezuela.
Analistas apontam ainda possíveis efeitos econômicos. Para Petro Oleshchuk, da Universidade Nacional de Kiev, uma normalização das relações entre Washington e Caracas poderia reabrir o mercado venezuelano de petróleo, com reflexos diretos nos preços globais. “Quanto menor o valor do petróleo, menor a capacidade financeira da Rússia de sustentar uma guerra prolongada”, afirma.
Influência russa em declínio
Parte da imprensa internacional levantou dúvidas sobre o impacto da prisão de Maduro na imagem democrática dos EUA. Especialistas ouvidos, porém, rejeitam a comparação com a invasão russa da Ucrânia. “Os Estados Unidos não estão anexando território nem questionando a existência do Estado venezuelano”, observa Oleshchuk.
Riefer concorda e destaca que o episódio tende a fragilizar ainda mais a credibilidade internacional de Moscou. “Quem deposita confiança na Rússia não pode contar com proteção efetiva”, diz. Melvin amplia o diagnóstico ao lembrar que o Kremlin já perdeu influência significativa em países como Armênia e Síria. “Agora, a Venezuela entra nessa lista. A Rússia está sobrecarregada pela guerra na Ucrânia e carece de recursos para sustentar alianças distantes.”
Mesmo em relação a Cuba, principal parceiro russo na América Latina, as possibilidades de reação de Moscou seguem limitadas, apesar de uma retórica mais dura. Com novas ameaças feitas por Trump à ilha, o episódio venezuelano reforça a percepção de que a capacidade de projeção global da Rússia atravessa um momento de retração.



