Estudo revela persistência da violência de gênero nas capitais brasileiras
Panorama da pesquisa
Sete em cada dez mulheres afirmam já ter sido vítimas de assédio moral ou sexual, sobretudo em ruas e espaços públicos. O dado integra o levantamento Viver nas Cidades: Mulheres, divulgado pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec. A pesquisa, realizada em dezembro de 2025, entrevistou 3,5 mil pessoas em dez capitais brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife.
“A insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção. Há uma proporção alta de mulheres que seguem dizendo que já sofreram assédio”, destacou Patrícia Pavanelli, diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec, durante o lançamento do estudo no Sesc SP.
Locais mais hostis
Entre as 2.066 mulheres entrevistadas, 71% relataram já ter sofrido algum tipo de assédio em pelo menos um dos seis ambientes analisados. As ruas e espaços públicos foram apontados como os locais mais críticos, mencionados por 54% das participantes. O transporte público aparece em seguida, citado por 50%. O ambiente de trabalho foi lembrado por 36%, bares e casas noturnas por 32%, o ambiente doméstico por 26% e o transporte particular por 19%.
“O espaço público e o transporte público se destacam como os lugares mais hostis para as mulheres, sendo esse um problema recorrente e que limita a nossa liberdade, o nosso direito à cidade”, reforçou Pavanelli.
Punição e rede de apoio
O estudo também investigou medidas consideradas prioritárias para enfrentar o problema. O aumento das penas contra agressores foi citado por 55% dos entrevistados, seguido pela ampliação dos serviços de proteção às vítimas (48%) e pela agilização das investigações (37%).
“A pesquisa aponta para gente um caminho que combina esse desejo da punição e da justiça, mas há necessidade de uma rede de apoio mais robusta”, explicou Pavanelli. Ela defendeu maior aproximação entre população e agentes de segurança, além de treinamento adequado para acolhimento das vítimas.
Debate entre especialistas
A promotora Fabíola Sucasas, do Ministério Público de São Paulo, ponderou que o enfrentamento da violência contra mulheres não pode se restringir ao endurecimento das penas. “Essa ideia de que o direito penal vai dar conta de tudo, de que o homem precisa ser preso, ele precisa ser punido, é uma visão que é patriarcal.”
Ela lembrou que o feminicídio já possui pena máxima de 40 anos, sem que isso tenha resultado em redução dos casos. “Isso não tem intimidado [os agressores], muito pelo contrário, o feminicídio tem aumentado e tem aumentado também o descumprimento das medidas protetivas de urgência.”
Na mesma linha, Naiza Bezerra, coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, ressaltou a necessidade de repensar políticas públicas. “Muitas mulheres não estão seguras no lar e, quando ela vai para o espaço público, para a rua, o transporte público, ela enfrenta uma insegurança ainda maior.”
Divisão das tarefas domésticas
O levantamento também abordou a percepção sobre a divisão dos afazeres domésticos. Quatro em cada dez entrevistados (39%) afirmaram que as tarefas são responsabilidade de todos, mas que as mulheres acabam realizando a maior parte. Para 37%, há divisão igualitária entre homens e mulheres.
O recorte por gênero revela discrepâncias: 47% dos homens acreditam que as atividades são divididas de forma equilibrada, enquanto apenas 28% das mulheres compartilham dessa visão. Já 44% das mulheres reconhecem que assumem a maior parte das tarefas, contra 32% dos homens.



