Autoridade monetária identificou patrimônio superior a R$ 102 bilhões em veículos citados em denúncias ao MPF e em operação da Polícia Federal
O Banco Central identificou seis fundos de investimento sob suspeita de integrarem um complexo esquema de fraudes financeiras atribuído ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Os mesmos fundos também figuram em apurações que investigam a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em setores da economia formal, segundo levantamento obtido a partir do cruzamento de dados realizado pela Folha de S.Paulo.
Os fundos citados são Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. De acordo com informações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), eles concentram, juntos, patrimônio líquido estimado em R$ 102,4 bilhões.
Denúncia ao Ministério Público
Os seis fundos constam em denúncia apresentada pelo Banco Central ao Ministério Público Federal em 10 de novembro, dentro das investigações que culminaram na prisão de Vorcaro, ocorrida uma semana depois. Todos são administrados pela Reag, gestora que mantém relação histórica com o banqueiro.
Esses veículos financeiros também aparecem nas apurações da operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal, que mirou a infiltração do PCC em atividades formais, especialmente nos segmentos de combustíveis e financeiro.
Reações das empresas
Procurado, o Banco Master não respondeu aos questionamentos da reportagem. A Reag informou que não comentaria o caso por não ter tido acesso formal à denúncia.
Entre os ativos do fundo Astralo 95, a reportagem identificou participação no Fundo Galo Forte, por meio do qual Vorcaro detém fatia no Clube Atlético Mineiro, equipe de sua cidade natal, Belo Horizonte.
A cadeia de investimentos mapeada pelos investigadores também leva a imóveis utilizados por Vorcaro em Brasília, além de debêntures emitidas pela Reag e CDBs do próprio Banco Master.
Ativos antigos e operações suspeitas
O Astralo 95 possui certificados de ações do antigo Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), conhecido como Besc, incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Esses papéis, chamados de cártulas, são documentos físicos que representam ações do banco extinto.
A operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, teve cerca de 350 alvos e buscou atingir o núcleo financeiro do PCC. A Reag foi alvo de busca e apreensão em sua sede. À época, a empresa declarou colaborar com as autoridades e afirmou confiar no esclarecimento dos fatos.
Outras irregularidades apontadas pelo BC
Em relatório separado encaminhado ao MPF, o Banco Central apontou falhas consideradas graves em operações realizadas entre julho de 2023 e julho de 2024 em dois fundos estruturados por Master e Reag: o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios.
As suspeitas sobre os fundos se somam a uma série de denúncias do BC contra o Banco Master. A mais emblemática envolve a revenda ao Banco de Brasília (BRB) de R$ 12,2 bilhões em créditos que, segundo os investigadores, não existiam.
Essa operação motivou a prisão preventiva de Vorcaro, ocorrida quando ele se preparava para deixar o país.
Dinâmica do esquema financeiro
De acordo com as investigações, o mecanismo envolvia empréstimos concedidos pelo Banco Master a empresas utilizadas para desviar recursos. O dinheiro alimentava uma cadeia de fundos que inflava artificialmente seus patrimônios por meio da compra de ativos de baixo valor por preços elevados.
Esses ativos eram transferidos sucessivamente entre fundos, em alguns casos mais de uma vez no mesmo dia. O valor superestimado era então contabilizado como parte do patrimônio dos veículos financeiros.
A suspeita é que os fundos estivessem registrados em nome de laranjas ligados a Vorcaro, com o objetivo de ocultar e lavar recursos. A denúncia aponta que ao menos R$ 11,5 bilhões tenham passado pelo esquema.
Origem dos recursos
Os valores utilizados teriam sido captados pelo Banco Master por meio da venda de CDBs a investidores. Esse dinheiro financiava os empréstimos às empresas que, posteriormente, abasteciam os fundos administrados pela Reag.
Como funcionava o esquema, segundo os investigadores
O banco concedia empréstimos a empresas ligadas ao grupo, mas formalmente desvinculadas do Master.
Essas empresas aplicavam os recursos nos fundos da Reag.
Nos sistemas de controle do Banco Central, as operações apareciam como regulares, dentro das exigências prudenciais.
Os gestores dos fundos compravam ativos de baixa liquidez por valores muito acima do mercado.
Os ativos supervalorizados eram registrados no patrimônio dos fundos.
Os vendedores, por sua vez, reinvestiam o dinheiro em outros fundos, fazendo os recursos circularem até chegar a carteiras em nome de laranjas ligados ao grupo Master.
O Banco Central avalia que o modelo configurou uma engrenagem sofisticada de lavagem de dinheiro, sustentada por sucessivas operações financeiras artificiais e pelo uso de estruturas formais do sistema bancário.



