Pesquisa da Ipsos mostra que o cuidado com a mente supera até o câncer entre as principais apreensões dos brasileiros; mudanças simples na rotina podem fazer diferença significativa na qualidade de vida
A saúde mental tornou-se a principal preocupação em saúde para os brasileiros. É o que revela a edição 2025 do Health Service Report, levantamento realizado pela Ipsos, segundo o qual 52% dos entrevistados apontam o bem-estar psíquico como prioridade — índice superior ao registrado para o câncer, citado por 37% dos participantes.
O percentual brasileiro também supera a média global: no mundo, 45% da população declara a saúde mental como sua maior inquietação. Diante desse cenário, especialistas defendem que a atenção ao tema precisa sair do discurso e se traduzir em hábitos concretos, capazes de melhorar a qualidade de vida no dia a dia. O início do ano, tradicionalmente associado a recomeços e resoluções, surge como um momento propício para essa mudança de postura.
Alimentação equilibrada e saúde do cérebro
A relação entre alimentação e saúde mental tem sido cada vez mais estudada, a ponto de dar origem a um campo específico da ciência: a psiquiatria nutricional. Pesquisas indicam que dietas com baixo consumo de ultraprocessados e ricas em legumes, verduras e alimentos naturais estão associadas a melhores desfechos psicológicos.
Uma revisão publicada na revista científica BMJ aponta que substâncias presentes em alimentos considerados nocivos aumentam processos inflamatórios no organismo, fenômeno já relacionado a sintomas depressivos. Além disso, a alimentação adequada contribui para o equilíbrio da microbiota intestinal — conjunto de microrganismos que vivem no intestino e que desempenham papel relevante no funcionamento cerebral. Estima-se que cerca de 90% da serotonina do corpo, neurotransmissor ligado à regulação do humor, seja produzida nessa região.
Sono regular como pilar do bem-estar
Manter uma rotina de sono adequada, com pelo menos sete horas por noite para adultos, é outra recomendação central. Durante o descanso noturno, o cérebro realiza processos fisiológicos essenciais, como a eliminação de substâncias tóxicas acumuladas ao longo do dia.
Além de favorecer o equilíbrio mental, dormir bem melhora a disposição para lidar com desafios cotidianos. Segundo o psiquiatra Ricardo Patitucci, diretor clínico da Clínica da Gávea, no Rio de Janeiro, alterações no sono costumam ser um dos primeiros sinais de transtornos como ansiedade e depressão, o que torna o tema um importante indicador da saúde mental.
Atividade física contra o sofrimento psíquico
O combate ao sedentarismo também é apontado como fundamental para a prevenção e o enfrentamento do sofrimento mental. A prática de exercícios estimula áreas do cérebro ligadas ao prazer e promove a liberação de substâncias como endorfina, dopamina e serotonina, associadas à sensação de bem-estar.
Para o psicólogo Bruno Emerich, doutor em Saúde Coletiva pela Unicamp, corpo e mente são indissociáveis. Ele destaca que a atividade física ajuda não apenas na prevenção, mas também na atenuação de sintomas psíquicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda ao menos 150 minutos semanais de atividade moderada, mas estudos indicam que mesmo períodos curtos de movimento diário já trazem benefícios mensuráveis à saúde mental.
Aprender algo novo estimula a mente
O começo do ano também pode ser uma oportunidade para investir em novos aprendizados. Segundo Patitucci, adquirir novas habilidades favorece a criação de conexões cerebrais, amplia o repertório de experiências e contribui para a sensação de propósito.
Além dos ganhos emocionais, o aprendizado contínuo é considerado um fator de proteção contra o declínio cognitivo e a demência. Romper com a repetição automática da rotina, segundo o especialista, é um passo importante para manter a mente ativa ao longo da vida.
Construção de uma rede de apoio
Avaliar as relações pessoais e fortalecer vínculos afetivos é outra estratégia destacada pelos especialistas. Ter uma rede de suporte — formada por pessoas com quem se pode contar em momentos de dificuldade emocional — é um fator relevante para a saúde mental.
Emerich ressalta que essa rede não se limita a laços familiares e pode incluir amigos e outras relações significativas. O essencial é que existam vínculos de confiança capazes de oferecer acolhimento nos períodos mais difíceis.
Menos redes sociais, mais presença
Reduzir o tempo dedicado às redes sociais aparece como uma recomendação recorrente. A exposição constante a versões idealizadas da vida alheia favorece comparações excessivas e a criação de padrões inalcançáveis de felicidade, sucesso e aparência.
Especialistas defendem que o uso mais consciente das plataformas, com limites de tempo definidos, pode ajudar a preservar o bem-estar. A hiperconexão, segundo Emerich, dificulta o descanso e o aproveitamento pleno dos momentos de lazer, reforçando a sensação de estar sempre em falta com alguma obrigação.
Terapia como ferramenta de cuidado contínuo
Embora mudanças de hábito sejam importantes, os especialistas ressaltam que o acompanhamento profissional é fundamental em casos mais delicados — e não deve ser visto como último recurso. A terapia, segundo Patitucci, contribui para o autoconhecimento e prepara o indivíduo para lidar melhor com situações de crise, mesmo antes do surgimento de transtornos.
O debate mais aberto sobre saúde mental tem ajudado a reduzir estigmas históricos em torno do tema. Essa mudança é considerada essencial num país que enfrenta crescimento nos diagnósticos: dados da OMS indicam que, em 2019, o Brasil tinha 18,6 milhões de pessoas com ansiedade, maior número absoluto do mundo. Já a depressão atingia 12,3% da população adulta em 2023, cerca de 20 milhões de brasileiros, segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde.



