Acordo de trégua avança, mas exigências russas dificultam consenso entre os envolvidos
Os interesses em jogo na busca por uma solução para a guerra na Ucrânia
Após mais de três anos de conflito, as negociações para um cessar-fogo na guerra da Ucrânia ganharam novo impulso com a reunião entre representantes dos Estados Unidos e do governo ucraniano em Jeddah, na Arábia Saudita. O encontro renovou a expectativa de uma trégua temporária, mas a adesão da Rússia permanece condicionada a exigências estratégicas.
Os principais envolvidos na guerra — Rússia, Ucrânia, Estados Unidos e União Europeia — mantêm posições distintas sobre os termos de um possível acordo. Enquanto Kiev busca recuperar territórios ocupados, Moscou insiste em garantias de segurança e em reverter sanções internacionais. Washington, por sua vez, pressiona para reduzir custos da assistência militar, e a União Europeia se preocupa com a estabilidade regional.
Moscou impõe condições para o cessar-fogo
O presidente russo, Vladimir Putin, declarou nesta quinta-feira (13) que está aberto a um cessar-fogo de 30 dias, mas condicionou a adesão da Rússia a exigências já manifestadas anteriormente. Durante sua primeira declaração pública sobre a proposta, apresentada sob forte influência do governo dos Estados Unidos, Putin enfatizou que há pontos pendentes que precisam ser discutidos diretamente com Washington.
Nos últimos anos, o Kremlin deixou claro que qualquer acordo deve incluir a garantia de que a Ucrânia permanecerá fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), além do desarmamento do país e do reconhecimento da anexação de quatro regiões ucranianas ocupadas.
“Estamos dispostos a suspender as hostilidades, mas o objetivo deve ser uma paz duradoura que elimine as causas fundamentais deste conflito”, afirmou Putin.
Especialistas apontam que Moscou busca ampliar sua influência sobre a Ucrânia e conter a presença da Otan na Europa Oriental. “Um acordo que preserve a soberania plena da Ucrânia dificilmente será aceito pela Rússia”, analisou Janis Kluge, do Instituto Alemão para Política Internacional e Segurança, em entrevista ao jornal The New York Times.
As exigências russas também incluem a rejeição a qualquer presença militar estrangeira em território ucraniano como parte de um acordo de paz. Além disso, a devolução dos territórios ocupados não está em discussão, e, recentemente, Putin sugeriu aos Estados Unidos um acordo para a exploração conjunta de recursos naturais nas áreas sob controle russo.
Outro ponto de interesse para Moscou é a suspensão das sanções internacionais que impactam a economia russa desde a invasão de 2022. O crescimento impulsionado pela economia de guerra já dá sinais de desaceleração, aumentando a pressão interna para aliviar restrições comerciais e financeiras.

Fonte: Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) e Critical Threats Project do AEI; em 09/02/25 | *território recapturado desde 24 de fevereiro de 2022
A Ucrânia tenta preservar soberania e recuperar territórios
Diante da forte pressão norte-americana, o presidente Volodimir Zelenski adotou uma postura mais flexível. Até recentemente, a posição oficial de Kiev era não negociar diretamente com Putin e insistir na retomada de todos os territórios ocupados, incluindo a Crimeia.
No entanto, após um tenso encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no qual o republicano cobrou mais reconhecimento da ajuda americana e defendeu um fim imediato do conflito, Zelenski recuou e passou a admitir concessões.
O governo ucraniano considera uma vitória a retomada do apoio militar e da cooperação em inteligência por parte dos Estados Unidos. Embora o cessar-fogo em discussão não contemple a devolução dos territórios ocupados, Kiev aposta na continuidade do respaldo internacional para pressionar Moscou no futuro e garantir sua posição estratégica no cenário geopolítico.
Os interesses dos Estados Unidos: economia e influência global
Donald Trump busca capitalizar politicamente sua atuação como mediador do conflito, apesar de não ter cumprido sua promessa de campanha de encerrar a guerra “em 24 horas” após assumir o cargo. O presidente americano tem pressionado tanto Moscou quanto Kiev a aceitarem um acordo que reduza os custos para os Estados Unidos, especialmente em relação ao envio de ajuda militar.
Durante a reunião do G7 no Canadá, o secretário de Estado, Marco Rubio, reforçou essa posição ao afirmar que um cessar-fogo bem-sucedido demonstraria a capacidade dos EUA de liderar esforços diplomáticos globais.
Além da redução de gastos com assistência militar, Washington também tem interesses econômicos na Ucrânia. O país europeu abriga ricas reservas de combustíveis fósseis e minerais estratégicos, incluindo terras raras. A expectativa era que um acordo concedendo direitos de exploração aos EUA fosse assinado na Casa Branca em fevereiro, mas, após o impasse nas negociações, Trump chegou a suspender temporariamente a ajuda militar e de inteligência a Kiev.
Especialistas alertam que a busca de Trump por um desfecho rápido pode resultar em concessões excessivas a Putin, comprometendo a posição da Ucrânia no longo prazo.
União Europeia: segurança regional e sanções contra a Rússia
O impacto da guerra na Ucrânia se estendeu para toda a Europa, levando países do bloco a reforçarem seus gastos com defesa e acelerarem sua integração à Otan. A Finlândia e a Suécia, historicamente neutras, aderiram à aliança militar, enquanto os Estados-membros da União Europeia impuseram sanções econômicas à Rússia.
“Nosso objetivo é garantir que a Ucrânia esteja na posição mais forte possível. As sanções são uma ferramenta fundamental para manter a pressão sobre Moscou”, declarou a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas.
Além das sanções, Bruxelas tem incentivado a aproximação da Ucrânia com o bloco, oferecendo o status de país candidato à União Europeia desde junho de 2022. No entanto, dentro da própria UE há divisões quanto ao posicionamento frente à Rússia. Países como Hungria e Eslováquia mantêm relações mais próximas com Moscou, enquanto outras nações, como Romênia e Polônia, adotam uma postura mais dura.
O cenário político europeu também reflete essa polarização. Na Romênia, por exemplo, o candidato de extrema direita Calin Georgescu, que recebeu apoio da Rússia, teve sua candidatura à presidência anulada pelo Tribunal Constitucional.
O impasse continua
Com interesses distintos em jogo, o caminho para um cessar-fogo definitivo na Ucrânia permanece incerto. Enquanto Kiev tenta equilibrar concessões com a manutenção de sua soberania, Moscou busca consolidar suas conquistas territoriais e pressionar o Ocidente por alívio nas sanções. Os Estados Unidos priorizam a redução de custos e o fortalecimento de sua influência geopolítica, enquanto a União Europeia enfrenta desafios internos para manter uma frente unificada contra a Rússia.
As próximas semanas serão decisivas para determinar se as negociações avançam para um acordo sustentável ou se o conflito persistirá, mantendo a instabilidade na região.
( Com DW )