Moscou estabelece exigência antes de consultas trilaterais com Estados Unidos e Ucrânia em Abu Dhabi, enquanto tratativas avançam sobre territórios ocupados
Condição para encerrar o conflito
O governo russo afirmou que a retirada das forças ucranianas da região do Donbass é requisito central para um eventual acordo de paz. A declaração foi feita pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, nesta sexta-feira (23), às vésperas de consultas trilaterais que reúnem representantes da Rússia, dos Estados Unidos e da Ucrânia em Abu Dhabi.
Segundo Peskov, a saída das tropas de Kiev da área disputada é “uma condição muito importante” para o fim das hostilidades. Ele evitou detalhar os termos que serão discutidos nos Emirados Árabes Unidos e disse que Moscou não considera oportuno divulgar informações adicionais sobre a chamada “fórmula de Anchorage”, referência a entendimentos associados à cúpula realizada no Alasca, em agosto de 2025, entre os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump.
Rodada de contatos diplomáticos
O encontro ocorre após uma série de movimentações diplomáticas. Putin conversou em Moscou com o enviado norte-americano Steve Witkoff, enquanto o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, reuniu-se com Trump durante agenda em Davos, na Suíça.
De acordo com o assessor de política internacional do Kremlin, Yuri Ushakov, as discussões mais recentes reforçaram a necessidade de tratar do impasse territorial, ponto que teria sido abordado nas conversas de Anchorage. Na ocasião, os Estados Unidos teriam flexibilizado a exigência de um cessar-fogo imediato como condição prévia, enquanto o futuro do Donbass e das regiões de Kherson e Zaporíjia — anexadas unilateralmente por Moscou em 2022 — segue sob reserva.
Peskov afirmou ainda que Putin se encontra em boas condições após as negociações noturnas com representantes da Casa Branca, classificando o processo como “intenso”, “responsável” e de alta complexidade.
Ativos congelados e reconstrução
O porta-voz mencionou também a existência de cerca de US$ 5 bilhões em ativos russos bloqueados nos Estados Unidos. Parte desses recursos, segundo ele, poderia ser direcionada à reconstrução da Faixa de Gaza por meio de um conselho de paz apoiado por Washington. O restante, acrescentou, não está descartado para a reconstrução de áreas ucranianas que permaneçam sob controle russo ao término da guerra.
Composição das delegações
Embora o Kremlin não tenha oficializado nomes, fontes diplomáticas indicam que a delegação russa em Abu Dhabi será liderada pelo chefe da Inteligência Militar (GRU), almirante Igor Kostyukov. Peskov limitou-se a informar que o grupo é formado por representantes do Ministério da Defesa.
Zelenski, por sua vez, declarou que a Ucrânia enviará o ministro da Defesa e negociador-chefe, Rustem Umerov, além do chefe do Estado-Maior General, Andriy Gnatov.
Retomada de diálogo direto
A reunião nos Emirados marca o primeiro encontro trilateral direto entre autoridades de alto escalão de Rússia, Ucrânia e Estados Unidos desde o início da invasão russa, em 2022. Delegações russas já se deslocaram para o local, e o Kremlin prevê que as tratativas ocorram entre sexta-feira e sábado.
Negociações diretas entre Moscou e Kiev já haviam sido tentadas anteriormente, inclusive em 2022 e, mais recentemente, em rodadas realizadas em Istambul, em 2025. Até agora, esses contatos resultaram sobretudo em trocas de prisioneiros e na repatriação de corpos de militares mortos em combate.
Diante do impasse, consolidou-se uma dinâmica de mediação indireta, na qual os Estados Unidos mantinham conversas separadas com russos e ucranianos e repassavam propostas de um lado ao outro — modelo que agora dá lugar a uma nova tentativa de diálogo simultâneo.



