Secretário de Estado afirma que estratégia dos EUA é manter quase bloqueio às exportações de petróleo para forçar mudanças políticas e abertura do setor a empresas estrangeiras
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, buscou neste domingo (3) recalibrar o discurso da Casa Branca após a declaração do presidente Donald Trump de que Washington “governaria” a Venezuela. Em entrevistas a emissoras americanas, Rubio afirmou que a estratégia do governo não envolve uma ocupação formal, mas a manutenção de forte pressão militar e econômica para influenciar a nova liderança venezuelana, especialmente por meio do controle das exportações de petróleo.
Segundo o chefe da diplomacia americana, a administração Trump pretende impor uma espécie de “quarentena” ao setor petrolífero venezuelano, restringindo a circulação de navios sancionados até que o país promova mudanças estruturais, incluindo a abertura da indústria estatal a investimentos estrangeiros.
Pressão sem ocupação formal
Questionado sobre como os Estados Unidos pretendem exercer influência direta sobre a Venezuela, Rubio descartou a criação de uma autoridade de ocupação nos moldes da implantada no Iraque após a invasão de 2003. Em vez disso, indicou que Washington atuará para constranger um eventual governo liderado por aliados do ex-presidente Nicolás Maduro, preso recentemente, a adotar novas diretrizes políticas e econômicas.
Em entrevista ao programa Face the Nation, da CBS News, Rubio afirmou que as forças americanas continuarão impedindo a entrada e saída de petroleiros incluídos em listas de sanções dos EUA. A restrição permanecerá, segundo ele, até que o governo venezuelano permita a participação de capital estrangeiro no setor de petróleo — com expectativa de prioridade para empresas americanas — e aceite outras condições impostas por Washington.
“Essa pressão continuará existindo até vermos mudanças concretas, tanto em favor do interesse nacional dos Estados Unidos quanto para abrir caminho a um futuro melhor para o povo venezuelano”, disse o secretário.
Presença naval e opções militares
Rubio confirmou que a expressiva presença naval dos Estados Unidos no Mar do Caribe, intensificada nos últimos meses, será mantida. Ele classificou a operação como uma das maiores mobilizações navais da história recente no Hemisfério Ocidental, com o objetivo de restringir as fontes de receita do antigo regime.
O secretário também afirmou que o presidente Trump não descarta o envio de tropas americanas ao território venezuelano, além da operação que resultou na captura de Maduro por forças especiais. Segundo Rubio, o presidente evita excluir publicamente qualquer opção considerada estratégica para os interesses dos EUA.
Divergências de discurso na Casa Branca
Em meio a questionamentos sobre uma possível contradição entre suas declarações e as de Trump, Rubio criticou o foco dado à fala do presidente durante uma coletiva na Flórida. Para ele, trata-se de uma política “em evolução”, e não de uma diretriz fechada.
Um funcionário da Casa Branca afirmou que Rubio apenas detalhou o sentido das declarações presidenciais e negou haver divergências internas. De acordo com esse assessor, os principais auxiliares de Trump continuarão buscando interlocução diplomática com a atual liderança venezuelana.
Petróleo no centro da estratégia
Tanto Rubio quanto Trump deixaram claro ao longo do fim de semana que o petróleo é o principal eixo da ofensiva americana contra o antigo governo venezuelano. Em entrevista à revista The Atlantic, Trump afirmou que a então líder interina Delcy Rodríguez enfrentaria “um preço muito alto” caso não colaborasse com as exigências dos Estados Unidos.
Rubio destacou que a indústria petrolífera venezuelana, hoje sob controle estatal e submetida a sanções, necessita de “reinvestimento”. Segundo ele, o país não dispõe de capacidade técnica ou financeira para revitalizar o setor sem a entrada de empresas privadas internacionais, dispostas a operar apenas sob garantias claras.
Reações e críticas internacionais
As declarações do governo americano foram interpretadas por analistas como uma admissão explícita de uma diplomacia baseada no uso da força, evocando práticas associadas ao imperialismo do século XIX. A postura gerou críticas em diversos países da América Latina, que veem a estratégia como uma violação de princípios do direito internacional.
Historicamente, a Chevron é a única grande petroleira dos EUA ainda em operação na Venezuela, por meio de parcerias com a estatal PDVSA. Licenças especiais concedidas nas administrações Biden e Trump permitiram a continuidade dessas atividades, apesar das sanções impostas ao setor desde o primeiro mandato de Trump.
Operações navais e tensão com a Rússia
No mês passado, forças americanas abordaram dois petroleiros que transportavam petróleo venezuelano para a Ásia. Um deles estava incluído em listas de sanções; o outro, não. Além disso, a Guarda Costeira dos EUA perseguiu recentemente um terceiro navio, que acabou mudando de nome e bandeira para a da Rússia. Moscou protestou formalmente contra a ação e exigiu o fim da perseguição.
Oposição venezuelana e impasses políticos
Apesar de afirmar que mantém diálogo com figuras da oposição, Rubio evitou declarar apoio explícito a qualquer liderança. No passado, como senador, ele endossou publicamente a candidatura de María Corina Machado ao Prêmio Nobel da Paz. Trump, por sua vez, declarou que Machado não teria respaldo interno suficiente para governar, embora observadores internacionais apontem que o candidato por ela apoiado venceu as eleições de 2024, resultado reconhecido tanto por Biden quanto por Trump.
Cuba no radar de Washington
Questionado sobre a possibilidade de Cuba se tornar o próximo alvo da política externa americana, Rubio não afastou essa hipótese. Ele classificou o governo cubano como um “problema sério” e reiterou a visão de que a queda do antigo regime venezuelano poderia acelerar mudanças em Havana.
Operação sem aval do Congresso
Em outra entrevista, Rubio afirmou que a captura de Maduro não exigiu autorização prévia do Congresso, por se tratar, segundo ele, de uma ação de aplicação da lei, e não de uma invasão militar. O secretário argumentou ainda que informar parlamentares antes da operação poderia gerar vazamentos e colocar soldados americanos em risco.
As declarações reforçam o tom de endurecimento da política externa dos Estados Unidos para a região e indicam que, apesar do discurso mais cauteloso, a Venezuela continuará no centro de uma estratégia de pressão econômica, militar e diplomática liderada por Washington.
(Com The New York Times)



