Jovem atleta lutava pela seleção nacional e era reconhecido pela dedicação incomum ao esporte
O taekwondo brasileiro perdeu uma de suas jovens promessas. Cauã Batista morreu no último dia 24, aos 18 anos, após permanecer uma semana internado no Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro. O atleta foi vítima de um atropelamento em Botafogo, na Zona Sul da capital fluminense.
Durante o período de internação, amigos e admiradores mobilizaram uma campanha de doação de sangue nas redes sociais, em uma tentativa de ajudar na recuperação do jovem.
Reconhecido por sua disciplina e entrega absoluta ao esporte, Cauã era visto por técnicos e colegas como um talento em ascensão na modalidade.
Talento em ascensão e trajetória promissora
Integrante da equipe Soares Team Taekwondo, Cauã ocupava a segunda colocação no ranking sub-21 do estado do Rio de Janeiro. Ele se preparava para disputar a Seletiva Aberta Nacional — competição que teria sua primeira participação e que começou nesta semana.
No início do ano, o atleta participou de um período de treinos com o técnico da seleção brasileira, Diego Ribeiro, que destacou o potencial do jovem.
“Teve um dia, após um treino mais puxado, que ele passou mal. Depois de recuperado, brinquei com ele e, a partir daí, pegamos um pouco mais de intimidade. Foram alguns dias, mas vi que era um menino muito bom, educado, talentoso no taekwondo. Se destacou nos treinos”, relatou ao UOL.
Segundo o treinador, a convivência foi breve, mas suficiente para evidenciar o talento do atleta.
“Durante esse período na clínica, se mostrou talentoso. Tinha um potencial muito grande, disciplinado, educado… Tinha os princípios que a arte marcial preza. Foi uma grande perda para o taekwondo, era uma promessa no esporte.”
Repercussão e homenagens no meio esportivo
A morte de Cauã provocou manifestações de pesar de diversas entidades, entre elas a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD), o Ministério do Esporte e a Unión Panamericana de Taekwondo.
Atletas de destaque da modalidade também prestaram homenagens públicas, incluindo Netinho, Milena Titoneli, Paulo Ricardo, Sarah Alicia e Sandy Macedo.
Entre amigos e colegas, as despedidas nas redes sociais tiveram um elemento em comum: a música favorita do jovem, O show tem que continuar. A canção, interpretada em diferentes versões — do Fundo de Quintal à voz de Arlindo Cruz — marcou simbolicamente as mensagens de despedida.
Conquista acadêmica e sonhos além do esporte
Pouco antes do acidente, Cauã comemorava uma conquista fora dos tatames: a aprovação no curso de Engenharia Ambiental da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
A conquista reforçava uma trajetória marcada não apenas pelo desempenho esportivo, mas também pelo comprometimento com a formação acadêmica.
Início precoce e paixão inabalável pela luta
O técnico Luan Dias, que acompanhou a trajetória do atleta desde a infância, relembra que a história de Cauã no taekwondo começou com insistência.
“Foi meu primeiro aluno infantil. Neguei ele muitas vezes, porque na turma só tinha adulto e graduado. Como eu ia inserir uma criança em um contexto desses, e faixa branca? Se acontecesse algo, eu seria o responsável, e eu estava começando minha caminhada de professor. Até que, depois de muita insistência, deixei.”
Segundo o treinador, o jovem demonstrava autonomia incomum no aprendizado.
“Aprendia as coisas sozinho, vendo vídeo, e aplicava na aula.”
A intensidade, marca registrada do atleta, também era lembrada pelo técnico como parte de sua personalidade competitiva.
“Esse cara amava a vida como nunca vi ninguém amar. Era intenso em tudo que se propunha a fazer. A intensidade era a maior virtude dele, mas também era o que mais atrapalhava em campeonatos, porque queria sempre fazer coisas mirabolantes. Queria pular, girar e etc. O negócio dele era lutar fazendo tudo que tinha direito. E eu avisava ‘não dá para ser assim. Em competição é diferente’.”
Dedicação absoluta aos treinos
Para Luan, a paixão de Cauã pela modalidade era inquestionável. O jovem comparecia a todos os treinos e frequentemente ajudava colegas, independentemente do nível técnico. Com o tempo, tornou-se capitão da equipe de luta da Soares Team.
“Se eu marcasse treino no Natal, ele estava lá. Sempre pontual e, às vezes, o único a ir. Comia tatame. Ajudava do mais velho ao mais novo, do faixa branca ao faixa preta. Ficava uma hora explicando porque amava compartilhar conhecimento.”
A persistência também marcou sua trajetória competitiva.
“Foram 10 anos sem ganhar alguma coisa. Poderia ter largado, mas a paixão pela arte marcial falou muito alto. ‘Caramba, o moleque não desiste’. Não era o atleta mais famoso do Rio e nem do Brasil, mas era conhecido por todos do meio pela sua persistência, insistência e respeito pela arte marcial.”
Uma perda sentida além dos tatames
A morte de Cauã Batista interrompeu uma carreira promissora e deixou uma lacuna no taekwondo nacional. Para treinadores, colegas e entidades do esporte, o jovem simbolizava mais do que talento competitivo — representava dedicação, disciplina e paixão pela arte marcial.
Sua trajetória, marcada pela intensidade e pela perseverança, permanece como referência para quem conviveu com ele dentro e fora das arenas.

