“Sorte é um nome popular que damos ao acaso que nos favorece.”
Achei essa frase genial. Simples, direta, quase despretensiosa. E, ainda assim, capaz de resumir um sonho antigo que atravessa gerações. Afinal, quem nunca pensou, nem que fosse por alguns segundos, em ganhar na loteria?
Ele começou pedindo desculpas pela pergunta.
“Meio boba”, disse.
Mas não era.
Quase ninguém pergunta em voz alta, mas quase todo mundo pensa: o que eu faço pra ganhar na Mega-Sena?
E a pergunta nunca é só sobre números. É sobre esperança. É sobre aquela fresta de luz que a gente abre na rotina para deixar entrar um futuro improvável, bonito, quase cinematográfico.
Do outro lado da conversa, com o espelho talvez, a resposta veio sem truques.
Nada de fórmulas mágicas.
Nada de promessas disfarçadas.
Falou-se de probabilidades.
De estatística.
De como o acaso não tem memória.
De como a sorte não escolhe endereço nem atende pedidos personalizados.
Falou-se da verdade, mas com cuidado. Como quem entrega uma xícara quente nas mãos de alguém.
E, sem perceber, a conversa deixou de ser sobre loteria.
Virou sobre sonhos.
Porque ninguém quer apenas acertar seis números. O que se deseja, no fundo, é tudo aquilo que viria depois.
A tranquilidade.
A casa cercada de verde.
As viagens adiadas por falta de tempo ou dinheiro.
A ajuda a um filho.
O presente especial para um neto.
O gesto silencioso de fazer o bem sem precisar explicar nada a ninguém.
O prêmio, na verdade, já estava desenhado no coração antes mesmo do sorteio.
A loteria virou só pretexto.
Falou-se também de algo que raramente colocamos no volante dos sonhos: jogar é entretenimento, não destino.
É o direito de imaginar, por alguns dias, uma vida sem boletos, sem apertos, sem “depois eu vejo”.
É o prazer simples de deitar a cabeça no travesseiro e pensar:
E se dessa vez fosse eu?
Isso não empobrece ninguém.
Às vezes, enriquece a semana.
Mas o momento mais bonito da conversa não foi quando se falou de milhões. Foi quando, quase sem aviso, surgiu outra conta, uma que não aparece nos bilhetes da loteria.
Ter com quem dividir a vida.
Ter histórias para contar.
Ter lembranças que aquecem mais do que dinheiro guardado.
Ter saúde suficiente para ainda fazer planos.
De repente, a pergunta “como ganhar na Mega-Sena?” ficou pequena.
Porque há prêmios que não dependem de sorteio.
Eles chegam aos poucos, ao longo dos anos, disfarçados de rotina.
Um casamento que atravessa décadas.
Filhos criados com esforço e amor.
Viagens feitas na medida do possível.
Sonhos que mudam de tamanho, mas não perdem a cor.
O dinheiro compra conforto.
Mas é o afeto que dá sentido ao conforto.
No fim, ficou uma conclusão mansa, dessas que não fazem barulho ao chegar: pode-se até não ganhar na loteria, e ainda assim ter sido amplamente premiado pela vida.
Talvez a verdadeira sorte seja essa: continuar sonhando, mesmo sabendo que o bilhete pode não ser o vencedor. Porque algumas riquezas já chegaram muito antes do sorteio.
E essas, felizmente, ninguém tira.
Porque milionário de verdade é quem ainda tem saúde, história pra contar… e alguém pra dividir a vida.
E isso, meu amigo, você já ganhou faz tempo.

Cronista da alma, Wilton percorre caminhos que iluminam a nossa caminhada.


