Argumento de “segurança nacional” reacende disputa diplomática com a Dinamarca e provoca alerta na Otan
A ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura e deposição do presidente Nicolás Maduro no sábado (3), deu novo peso a ameaças e ambições já conhecidas da política externa do presidente Donald Trump. Entre elas, voltou ao centro do debate internacional o interesse reiterado de Washington em assumir o controle da Groenlândia, território autônomo situado no Ártico e administrado pela Dinamarca.
Após a ação na América do Sul, declarações que antes eram vistas como bravatas passaram a ser encaradas com maior apreensão por aliados europeus. A insistência de Trump em relação à Groenlândia aprofundou o atrito com Copenhague e reacendeu discussões sensíveis sobre soberania, segurança coletiva e o equilíbrio geopolítico no Ártico.
Na segunda-feira (5), a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, reafirmou que já havia “deixado muito claro onde o Reino da Dinamarca se posiciona, e que a Groenlândia repetidamente afirmou que não quer fazer parte dos Estados Unidos”. Ela alertou ainda que uma eventual ação militar americana poderia comprometer a própria aliança atlântica.
Mas por que a Groenlândia se tornou um objetivo tão recorrente no discurso de Trump — e por que isso gera desconforto crescente na Europa?
Uma ilha gigante, remota e estratégica
Com cerca de 2,16 milhões de quilômetros quadrados, a Groenlândia é a maior ilha do planeta e integra o Reino da Dinamarca como território autônomo. Antiga colônia, abriga aproximadamente 56 mil habitantes e é considerada o território menos densamente povoado do mundo.
As cidades concentram-se sobretudo na costa oeste, e os deslocamentos entre elas dependem de barcos, helicópteros e aviões. A capital, Nuuk, ilustra bem esse cenário: um pequeno núcleo urbano de casas coloridas entre o litoral recortado e o relevo montanhoso do interior.
Cerca de 81% da superfície da ilha é coberta por gelo. Quase 90% da população é de origem inuíte, e a economia local historicamente se apoia na pesca, embora o potencial mineral venha ganhando espaço no debate político e estratégico.
Posição-chave no tabuleiro geopolítico
A localização da Groenlândia é considerada crucial por estrategistas militares. A ilha fica entre a América do Norte e a Europa e integra a chamada lacuna GIUK — corredor marítimo entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido que conecta o Ártico ao oceano Atlântico.
Além disso, o território concentra reservas de petróleo, gás e minerais de terras raras, insumos estratégicos para setores como tecnologia, energia limpa e defesa. Em um contexto de rivalidade entre grandes potências, especialmente com a China dominando parte da cadeia global desses minerais, o interesse americano ganhou novo fôlego.
O aquecimento global também altera a equação estratégica. O derretimento do gelo facilita o acesso a recursos naturais e amplia a navegabilidade de rotas marítimas do norte, com potencial para redesenhar fluxos comerciais globais — apesar de Trump já ter classificado a crise climática como “a maior farsa”.
Publicamente, o presidente dos EUA minimizou o peso econômico dos recursos naturais. “Precisamos da Groenlândia por segurança nacional, não por minerais”, afirmou a jornalistas no mês passado. Nos bastidores, porém, o discurso não é unânime. Em janeiro de 2024, o então assessor de segurança nacional Mike Waltz declarou à Fox News que o foco da administração estava em “minerais críticos” e “recursos naturais”.
O efeito Venezuela
A operação militar na Venezuela funcionou como um divisor de águas na percepção europeia. No dia seguinte à captura de Maduro, Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos precisam da Groenlândia “do ponto de vista da segurança nacional”. Pouco depois, o vice-chefe de gabinete da Casa Branca para políticas, Stephen Miller, reforçou o argumento.
“Precisamos da Groenlândia… é tão estratégica agora. A Groenlândia está coberta de navios russos e chineses por toda parte”, disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One. “Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional, e a Dinamarca não vai conseguir fazer isso.”
As declarações, feitas após uma demonstração concreta de força militar, passaram a ser interpretadas como um sinal de que a retórica poderia se converter em pressão real.
Um interesse antigo de Trump
O desejo de Trump pela Groenlândia remonta ao seu primeiro mandato, quando ele chegou a cogitar a compra do território — ideia prontamente rejeitada pelas autoridades locais. Em dezembro de 2024, o tema voltou à tona em uma publicação nas redes sociais: “Para fins de Segurança Nacional e Liberdade em todo o mundo, os Estados Unidos da América consideram que a propriedade e o controle da Groenlândia são uma necessidade absoluta”.
Posteriormente, o argumento foi ampliado para a chamada “segurança econômica”. Em março de 2025, o vice-presidente JD Vance visitou a ilha e afirmou que era “a política dos Estados Unidos” buscar mudanças na liderança dinamarquesa do território, embora tenha reconhecido que a decisão caberia aos groenlandeses.
Pesquisas locais, no entanto, indicam rejeição contundente à ideia de integração aos EUA. Segundo a Reuters, 85% da população da Groenlândia é contrária ao domínio americano.
Impacto sobre a Otan
A possibilidade — ainda que hipotética — de uma ação militar dos EUA contra a Groenlândia preocupa aliados. Trump já se recusou a descartar publicamente essa opção, elevando o tom das reações na Europa.
Frederiksen afirmou que, caso os Estados Unidos ataquem outro país da Otan, “tudo para, incluindo a Otan e, portanto, a segurança que tem sido garantida desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.
Na terça-feira, líderes de França, Alemanha, Itália, Polônia, Espanha, Reino Unido e Dinamarca divulgaram uma declaração conjunta em apoio à soberania dinamarquesa e ao direito de autodeterminação da Groenlândia. “Groenlândia pertence ao seu povo. Cabe à Dinamarca e à Groenlândia, e somente a eles, decidir sobre questões que lhes dizem respeito”, afirmaram. O texto destacou ainda que a segurança do Ártico deve ser tratada de forma coletiva dentro da aliança.
Reação da população local
As declarações de Trump atingem um ponto sensível da política groenlandesa, moldada pelo passado colonial e pelo debate sobre independência. A Groenlândia foi incorporada à Dinamarca em 1953, conquistou autonomia interna em 1979 e alcançou o autogoverno em 2009. Ainda assim, política externa, defesa e moeda seguem sob controle dinamarquês.
Embora haja partidos que defendam a independência, não existe consenso nem cronograma definido. O que parece claro é a rejeição à substituição de Copenhague por Washington.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, classificou a retórica americana como “completamente inaceitável”. “Quando o presidente dos Estados Unidos fala em ‘precisar da Groenlândia’ e nos vincula à Venezuela e à intervenção militar, isso não é apenas errado. É desrespeitoso”, afirmou. “Chega de fantasias de anexação”.
Segundo ele, a ilha está aberta ao diálogo, “mas elas devem ocorrer pelos canais adequados e com respeito ao direito internacional… A Groenlândia é nossa casa e nosso território. E continuará sendo”.
Há, porém, posições divergentes. Kuno Fencker, parlamentar do partido Naleraq, mais alinhado aos EUA, afirmou à CNN que alguns comentários de Trump foram “recebidos de forma bastante positiva”.
“Se ele diz que a Groenlândia tem direito à autodeterminação ou que poderia se juntar aos Estados Unidos, é uma grande oferta do presidente dos Estados Unidos”, disse Fencker. “Mas se jornalistas estão colocando palavras na boca dele sobre anexar ou tomar a Groenlândia militarmente, isso não foi bem recebido”, acrescentou.
(Fonte: CNN Internacional)



