Alta de até 9% leva Brent a superar US$ 85; ameaça a rota por onde passa 20% da energia mundial amplia temor de choque de oferta
Os preços internacionais do petróleo dispararam nesta terça-feira (3) após o Irã anunciar o fechamento do Estreito de Hormuz, corredor estratégico por onde transita cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumidos diariamente no planeta. A medida, tomada em meio à escalada militar envolvendo Teerã, Estados Unidos e Israel, provocou uma onda de aversão ao risco nos mercados globais.
Por volta das 8h (horário de Brasília), o barril do Brent — referência internacional — chegou a US$ 85,10, avanço de 9% no dia e o maior patamar desde 19 de julho de 2024, quando atingira US$ 85,35. Às 11h30, era negociado a US$ 83,88, ainda com valorização de 7,87%.
O movimento também alcançou o petróleo WTI (West Texas Intermediate), referência nos Estados Unidos, que subiu quase 8% e tocou US$ 77,57 — maior cotação desde 23 de junho de 2025.
A reação ocorre após a Guarda Revolucionária iraniana declarar que qualquer embarcação que tente atravessar o estreito será alvo de ataque. O canal marítimo, com apenas 40 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, separa o Irã da Península Arábica e é vital para o abastecimento energético da Ásia, sobretudo de China e Índia.
No domingo (8), primeiro pregão após os ataques americanos e israelenses que resultaram na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, o Brent já havia saltado 13% na abertura dos mercados.
Rota vital sob ameaça
O impacto da crise se amplia porque, embora o Irã responda por aproximadamente 3,3 milhões de barris diários — cerca de 3% da produção global — sua posição geográfica lhe confere influência desproporcional sobre o fluxo energético mundial.
Desde o início das hostilidades, no sábado (28), o tráfego na região vem sendo comprometido. Um tanque de combustível foi atingido no porto de Duqm, em Omã, enquanto um incêndio foi registrado em Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, um dos principais polos logísticos de petróleo do mundo.
Centenas de navios-tanque carregados com petróleo e gás natural liquefeito ficaram retidos próximos a centros de escoamento como Fujairah, sem acesso aos mercados da Ásia e da Europa. As taxas globais de frete marítimo atingiram níveis recordes.
Empresas e governos reagiram rapidamente. A estatal QatarEnergy interrompeu a produção de alumínio, ureia, polímeros e metanol, um dia após suspender o fornecimento de GNL, segmento no qual responde por cerca de 20% do consumo mundial. A Arábia Saudita paralisou atividades em sua maior refinaria doméstica, enquanto Israel e o Curdistão iraquiano reduziram parte da produção de gás e petróleo.
A gigante saudita Aramco informou clientes do petróleo Arab Light que as cargas deverão ser retiradas em Yanbu, no Mar Vermelho, alternativa que evita a passagem pelo estreito. A companhia não comentou oficialmente.
A Índia, altamente dependente de energia do Oriente Médio, iniciou racionamento de gás para o setor industrial. Na Europa, que já vinha com estoques pressionados após um inverno rigoroso e deixou de importar gás russo desde 2022, a expectativa é de aumento das compras de gás americano para recompor reservas.
Analistas alertam que, caso o bloqueio persista, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e o próprio Irã poderão ser forçados a reduzir a produção nos próximos dias por falta de capacidade logística para escoamento.
Pressão inflacionária e política monetária
No Brasil, a disparada das cotações internacionais tende a pressionar os preços dos combustíveis e pode atrasar o ciclo de cortes na taxa básica de juros. Especialistas, contudo, não enxergam risco imediato de desabastecimento.
O consenso entre analistas brasileiros e estrangeiros é de que a magnitude do impacto dependerá da duração e da intensidade do conflito, especialmente do tempo em que o Estreito de Hormuz permanecer efetivamente fechado.
Há expectativa de volatilidade acentuada nas próximas sessões, embora parte do mercado avalie que a oferta global ainda supera a demanda, o que poderia limitar um avanço prolongado dos preços.
Bolsas despencam; “venda por pânico”
A tensão geopolítica desencadeou fortes perdas nos mercados acionários. Na Ásia, o índice CSI300, que reúne ações de Xangai e Shenzhen, caiu 1,54%, enquanto o SSEC recuou 1,43% — pior desempenho desde fevereiro. O índice de Seul desabou 7,24%, e Tóquio recuou 3,1%.
Na Europa, o índice Euro STOXX 600 registrava queda de 3,87% no fim da manhã, caminhando para a maior retração desde abril do ano passado. Frankfurt recuava 4,03%; Madri, 4,91%; Milão, 4,41%; Paris, 3,14%; e Londres, 2,85%.
“É venda por pânico”, afirmou Emmanuel Cau, chefe de estratégia de ações europeias do Barclays. “O mercado estava complacente quanto à escala desta guerra [antes do fim de semana].”
Nos Estados Unidos, os futuros da Nasdaq recuavam 2,3% antes da abertura, enquanto Dow Jones e S&P 500 caíam 1,76% e 1,84%, respectivamente. Ações de tecnologia como Nvidia e Microsoft operavam em baixa, assim como empresas de semicondutores e memória.
Nem mesmo o ouro escapou da turbulência: o metal, tradicional refúgio em momentos de crise, caía 1,90%, cotado a US$ 5.209,55. O bitcoin, por sua vez, avançava mais de 2%, negociado acima de US$ 67 mil.
” Muito dependerá do preço do petróleo. Qualquer pico sustentado certamente desencadeará um movimento de aversão ao risco mais significativo”, avaliou Jim Reid, estrategista do Deutsche Bank.
A escalada do petróleo reacendeu temores inflacionários globais. O rendimento do Treasury americano de 10 anos atingiu o nível mais alto em mais de uma semana, e investidores postergaram a expectativa de um corte de 25 pontos-base pelo Federal Reserve, de julho para setembro.
Com o Estreito de Hormuz sob ameaça e o conflito ainda em expansão, o mercado se prepara para um período de incerteza prolongada — no qual energia, inflação e geopolítica voltam a ditar o ritmo da economia global.



