É fácil reconhecer a origem de uma pedra.
As que vêm da pedreira são ásperas.
Cheias de quinas.
Irregulares ao toque.
Ferem a mão desavisada.
As de rio são diferentes.
Lisas.
Arredondadas.
Quase dóceis.
Carregam no corpo o trabalho silencioso do tempo.
Nenhuma pedra de rio nasceu assim.
Foi, um dia, bruta como as outras.
Resistente.
Rígida.
Mas a água passou.
E passou de novo.
E voltou a passar.
A correnteza fez o que a pressa jamais faria.
Desgastou as arestas.
Suavizou excessos.
Arremessou uma contra a outra até que o impacto deixasse de ser guerra e se tornasse ajuste.
Com o tempo, o atrito diminui.
O encontro já não fere com a mesma intensidade.
Há algo profundamente humano nesse processo.
Também nós chegamos ao mundo cheios de quinas.
Impulsos.
Medos.
Orgulho.
Vaidades que mal sabemos nomear.
No início, quase tudo é defesa.
Reação.
Instinto.
Pedras recém-retiradas da pedreira da vida.
A convivência é a nossa correnteza.
É nela que somos lançados uns contra os outros, muitas vezes sem escolha.
Família.
Trabalho.
Vizinhança.
Sociedade.
O outro aparece.
E nos testa.
Não por maldade.
Mas porque é assim que o rio funciona.
É no encontro que surgem os atritos.
O comentário atravessado.
A atitude que incomoda.
A diferença que irrita.
Nada disso é desperdício.
As pessoas que mais nos tocam, às vezes as que mais nos ferem, costumam alcançar exatamente as nossas arestas mais afiadas.
Quem pede demais revela nosso egoísmo.
Quem parece melhor expõe nossa vaidade.
Quem discorda confronta nosso orgulho.
Cada incômodo é um espelho.
Cada conflito, um sussurro:
há algo aqui que ainda precisa ser polido.
A humanidade evoluiu em quase tudo.
Criou máquinas.
Encurtou distâncias.
Dominou forças da natureza.
Mas o mundo interior nem sempre acompanha o mesmo passo.
Ainda carregamos impulsos antigos.
Reações rápidas demais.
Intolerâncias que sobrevivem ao tempo.
Mudamos o cenário.
Nem sempre mudamos a postura.
É mais fácil transformar paisagens do que transformar atitudes.
A pedra não escolhe.
É moldada pela insistência da água.
Nós escolhemos.
Podemos aprender apenas pelo choque.
Ou pela consciência.
Pela dor repetida.
Ou pela escuta atenta.
Quanto mais rígidos permanecemos, mais intensos são os impactos.
A dor, muitas vezes, nasce da recusa.
Recusa em ceder.
Em compreender.
Em olhar para dentro.
Resistir endurece.
Fluir suaviza.
Existe um caminho mais leve.
Quando escolhemos a empatia, algo muda.
Quando respondemos com respeito, algo cede.
Quando a gentileza entra, a rigidez sai em silêncio.
O polimento pode acontecer sem violência.
Não se trata de fragilidade.
Trata-se de maturidade.
Pedras lisas não perdem identidade.
Apenas deixam de ferir por onde passam.
A vida continuará lançando encontros.
Situações inesperadas.
Desafios.
Isso não muda.
O que muda é a forma como atravessamos a correnteza.
No fim, talvez a sabedoria não esteja em evitar o rio.
Mas em aceitar o movimento.
Aprender com o impacto.
Permitir que o tempo faça sua parte.
Não fomos feitos para ferir o tempo todo.
Nem para sermos feridos para sempre.
Fomos feitos para, aos poucos,
nos tornarmos mais leves.
E, quem sabe,
mais humanos.


