Um rio, uma curva, uma vida.
E a memória, essa água funda, que nunca seca.
Faz tanto tempo…
Mas cada vez que volto à beira do Rio do Peixe, não é apenas o lugar que me chama. É o homem que fui ali. O tempo se dobra, sim, mas não inteiro. Ele me permite lembrar, não retornar.
Foi em 1996 que meu cunhado Ronan ergueu sua casa na barra, onde o rio Peixe encontra o Araguaia, naquele recanto chamado Viúva, escondido entre matas e águas, onde o tempo parecia descansar de si mesmo.
No ano seguinte, construí a minha. Não era só madeira e telhado. Era força, projeto, presença. Era o corpo acompanhando o sonho. Eu ainda tinha mãos que sustentavam o dia inteiro e pernas que não reclamavam da distância.
Mas o tempo é bicho solto.
Passa.
E não volta.
Depois veio a despedida.
A venda.
O vazio.
E hoje sei: não foi só a casa que ficou para trás. Ficou também uma versão de mim mesmo que já não me acompanha.
Quem vende um pedaço da própria alma…
vende junto uma parte da própria juventude.
As paredes se foram,
mas as lembranças ficaram esperando por mim
naquele mesmo ponto da margem.
Não como convite, mas como espelho.
Elas mostram o que foi, não o que pode ser repetido.
Minha paixão pela natureza nasceu antes da casa.
Em 1976, às margens do Lago Azul, o rio já me ensinava a viver. Naquele tempo, eu não observava a paisagem, eu fazia parte dela.
No começo, eram passeios com amigos, gargalhadas largas, dias que começavam cedo e terminavam tarde. Depois vieram as pescarias em família, as férias de julho, a vida cabendo inteira em poucos dias, e sobrando energia.
O céu se refletia no espelho d’água.
Tudo era paz.
A natureza era inteira.
E nós… também
Hoje entendo: aquele paraíso era feito de rio, mata e céu, mas também de juventude, presença, força e companhia. Sem isso, o lugar seria só cenário.
Havia uma música ali:
no vento nas árvores,
no canto dos pássaros,
no barulho da água batendo no casco do barco.
Mas havia também o riso alto, o passo firme, o corpo disponível para viver sem cálculo.
A vida é feita de despedidas silenciosas.
Primeiro, dos lugares.
Depois, das pessoas.
Por fim, e mais difícil, de quem fomos.
Quando abrimos os olhos,
o mundo já mudou.
E nós mudamos junto, mesmo sem perceber.
Os amigos se foram, ou ficaram distantes.
As conversas ao redor da fogueira viraram lembrança.
Os filhos cresceram, criaram asas.
E nós nos tornamos avós, outro tempo, outra ternura, outro ritmo.
As casas foram vendidas.
Mas a alma daquele lugar permaneceu.
E permanece porque carrega algo que não cabe mais no presente:
a soma do lugar com a juventude que o habitou.
Hoje, sei que mesmo se eu voltasse para lá,
não seria o mesmo.
Faltariam as vozes.
Faltaria a força.
Faltaria o tempo largo que existia dentro de nós.
O rio continuaria correndo, fiel ao seu destino.
Mas eu já não correria com ele.
E talvez seja isso que o tempo faz:
não nos tira os lugares,
nos tira a possibilidade de habitá-los como antes.
Ainda assim, nada foi perdido.
Tudo foi vivido.
O que passou não desaparece.
Fica guardado na memória,
na água,
na terra,
e principalmente no que nos tornamos.
A vida é uma dança.
Em certos momentos, dançamos com vigor.
Em outros, apenas escutamos a música.
E toda vez que lembro do Rio do Peixe, não sinto tristeza.
Sinto gratidão.
Porque aquele tempo existiu.
Porque eu estive lá.
Porque fui inteiro.
E isso, nem o tempo leva.




