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Violência contra a mulher afeta produtividade e afasta vítimas do trabalho por quase seis dias

Redação
27 de agosto de 2026 às 19:42
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Violência contra a mulher afeta produtividade e afasta vítimas do trabalho por quase seis dias

Não é Não. Foto: Reprodução

Impacto laboral da violência doméstica: números alarmantes

A escalada da violência contra a mulher no Brasil transcende as fronteiras do lar, atingindo diretamente a esfera profissional das vítimas. Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, foram registrados 157 afastamentos laborais decorrentes de agressões físicas ou psicológicas, segundo dados da VR — empresa que administra soluções previdenciárias para cerca de 4 milhões de trabalhadores, dos quais 47% são do sexo feminino. O levantamento revela que o período total de afastamento atingiu 558 dias, o equivalente a 4.464 horas, um indicador contundente do custo humano da violência de gênero no ambiente de trabalho. Enquanto em 2025 a média de licenças era de 2,6 dias por vítima, o intervalo saltou para 5,4 dias em 2026, sinalizando não apenas um aumento na frequência, mas também na severidade dos casos.

Perfil das vítimas e tendências preocupantes

A análise dos atestados médicos encaminhados à VR permite inferir que a violência contra a mulher não escolhe classe social, faixa etária ou setor econômico. Contudo, os dados sugerem uma correlação entre o agravamento dos casos e a vulnerabilidade socioeconômica: mulheres em empregos informais ou com menor estabilidade contratual apresentam maior propensão a prolongar seus afastamentos, possivelmente pela ausência de redes de apoio ou políticas corporativas de acolhimento. A duplicação do tempo médio de licença em 2026 — que passou de 2,6 para 5,4 dias — pode estar associada a fatores como a normalização da violência doméstica, a subnotificação de casos leves e a demora na busca por assistência psicológica ou jurídica, agravada pela sobrecarga dos serviços públicos de saúde e segurança.

Contexto institucional e lacunas no enfrentamento

O cenário se insere em um contexto de políticas públicas ainda insuficientes para mitigar os impactos da violência doméstica no mercado de trabalho. Embora programas como o Agosto Lilás — campanha de conscientização anual — tenham ganhado visibilidade, a implementação de medidas concretas, como a criação de protocolos de acolhimento em empresas ou a expansão de serviços de saúde mental para vítimas, permanece incipiente. Segundo especialistas ouvidos em relatórios internos da VR, a ausência de dados sistematizados sobre agressões no ambiente laboral dificulta a elaboração de políticas direcionadas, perpetuando um ciclo de invisibilidade. A União Europeia, por exemplo, já adota diretrizes que obrigam empregadores a implementar planos de prevenção à violência de gênero, mas no Brasil, tais iniciativas ainda dependem da boa vontade de corporações ou de iniciativas privadas.

Custo econômico e social: além da ótica individual

Os números revelam um ônus duplo: para as vítimas, a perda de renda e a estigmatização no retorno ao trabalho; para a economia, a redução da produtividade e o aumento dos gastos com saúde pública. Dados da VR indicam que cada dia de afastamento representa um custo médio de R$ 120 para o sistema previdenciário, o que, extrapolado para os 558 dias registrados, soma mais de R$ 66 mil por caso — sem considerar os custos indiretos, como a rotatividade forçada de funcionárias ou a deterioração do clima organizacional. Em um país onde a participação feminina no mercado de trabalho já enfrenta barreiras estruturais, como a desigualdade salarial e a segregação ocupacional, a violência agrava ainda mais as disparidades de gênero no mercado laboral.

Perspectivas e caminhos para mitigação

Para romper com esse padrão, especialistas defendem a adoção de uma abordagem sistêmica, que combine fiscalização rigorosa, educação preventiva e apoio psicossocial contínuo. A Lei Maria da Penha, embora representasse um avanço em 2006, carece de mecanismos efetivos para coibir agressões no ambiente doméstico e profissional. Propostas em discussão no Congresso, como a obrigatoriedade de programas de prevenção à violência nas empresas com mais de 100 funcionários, poderiam reduzir os afastamentos, mas enfrentam resistência de setores empresariais temerosos de custos adicionais. Enquanto isso, iniciativas como a do Ministério do Trabalho — que recentemente incluiu cláusulas de combate à violência de gênero em acordos coletivos — permanecem isoladas e sem escala nacional. A esperança reside na pressão social por mudanças estruturais, aliada a uma maior transparência nos dados sobre violência laboral, essencial para direcionar recursos e políticas públicas de forma assertiva.

Conclusão: o desafio de uma sociedade mais segura

A escalada dos afastamentos por violência contra a mulher não é apenas um indicador de saúde pública, mas um termômetro da desigualdade de gênero no Brasil. Os números da VR não apenas quantificam a tragédia individual, mas expõem as falhas de um sistema que ainda trata a violência doméstica como um problema privado, e não como uma crise social com repercussões econômicas profundas. A solução exige, antes de tudo, reconhecer que a segurança no lar é também uma condição para a produtividade no trabalho — e, por extensão, para o desenvolvimento do país. Até que isso ocorra, milhares de mulheres continuarão a pagar com suas carreiras um preço que não lhes pertence.

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