O cenário econômico brasileiro vem apresentando um aumento alarmante no número de empresas que buscam proteção judicial ou extrajudicial para evitar a falência
Empresas de diversos segmentos, como Habib’s, Casas Bahia, Marabraz, Braskem, Raízen, Oncoclínicas, Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly), Grupo CVLB (Casa & Vídeo e Le Biscuit) e St. Marché, estão entre as que ingressaram com pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial nos primeiros oito meses de 2026. Segundo dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial, o volume de companhias nesse processo cresceu 66% nos últimos três anos, totalizando 6.341 casos no segundo trimestre de 2026. Desses, 21% pertencem ao varejo, 19,6% à indústria de transformação e 17,5% ao agronegócio, setores mais impactados pela crise.
Fatores macroeconômicos agravam a crise
A escalada das taxas de juros, mantidas em patamares elevados pelo Banco Central para conter a inflação, tem sido apontada como um dos principais fatores para o aumento das recuperações judiciais. Com o custo do crédito em níveis históricos, empresas endividadas enfrentam dificuldades crescentes para rolar dívidas ou captar novos recursos. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, embora negue que a alta das recuperações judiciais seja atribuída exclusivamente aos juros, reconhece a influência do cenário macroeconômico, incluindo a desvalorização do real e a queda na demanda interna.
Endividamento e falta de liquidez: o ciclo vicioso
Além dos juros, o endividamento excessivo é um problema recorrente entre as empresas brasileiras. Muitas delas ampliaram suas dívidas durante a pandemia, aproveitando linhas de crédito subsidiadas, mas agora enfrentam dificuldades para honrar os compromissos. A crise de confiança no mercado, agravada pela incerteza política e pela desaceleração econômica, reduz a disposição de bancos e fornecedores em conceder prazos ou renegociar dívidas. No caso das Americanas, que ingressou com recuperação judicial em 2023, a situação exemplifica como o endividamento pode se tornar insustentável quando combinado com queda nas vendas e gestão inadequada.
Setores mais afetados e suas vulnerabilidades
O varejo, um dos setores mais atingidos, sofre com a redução do poder de compra dos consumidores, especialmente após o fim dos programas de transferência de renda e a alta dos preços dos combustíveis. Empresas como Casas Bahia e Marabraz, que dependem do crédito ao consumidor, enfrentam inadimplência crescente e queda nas vendas. Já a indústria de transformação, representada por casos como o da Braskem, lida com custos elevados de energia e insumos, além da concorrência internacional. O agronegócio, por sua vez, sofre com a queda nos preços das commodities e a seca em regiões produtoras, o que afeta o fluxo de caixa de empresas como a Raízen.
Perspectivas e possíveis soluções
Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que a recuperação das empresas dependerá de uma combinação de fatores: redução das taxas de juros, melhora no ambiente de negócios e políticas públicas que facilitem a renegociação de dívidas. Alguns analistas sugerem que o governo poderia ampliar programas de apoio ao crédito, enquanto outros defendem reformas estruturais para reduzir o custo de capital no Brasil. No entanto, a trajetória de recuperação será lenta, dada a profundidade da crise. Enquanto isso, o número de empresas em recuperação judicial deve continuar crescendo, pressionando ainda mais o mercado de trabalho e a economia como um todo.




