Apesar do acordo entre os Estados Unidos e o Irã, a normalização do principal corredor energético do planeta provavelmente demandará semanas, e possivelmente meses
O mercado global de energia recebeu com otimismo a notícia da reabertura total do Estreito de Ormuz, após um acordo entre Estados Unidos e Irã para restabelecer a navegação na região. No entanto, especialistas consultados pela Fortune e pela Capital Economics destacam que, embora o gesto reduza parte das tensões geopolíticas, a recuperação dos preços da gasolina — e dos combustíveis em geral — não será imediata ou linear.
O déficit de 2 bilhões de barris e o legado do bloqueio
Desde março de 2026, quando a passagem foi interrompida pela primeira vez na história moderna, o mercado global de petróleo acumulou um déficit de aproximadamente 2 bilhões de barris. Nesse período, países consumidores esvaziaram reservas estratégicas, enquanto produtores reduziram extração para evitar colapsos logísticos. Navios-tanque foram desviados para rotas mais longas, como o Cabo da Boa Esperança, elevando custos operacionais e, consequentemente, os preços ao consumidor.
Recuperação gradual: 80% dos fluxos até setembro, mas preços ainda pressionados
Segundo projeções da Capital Economics, a retomada dos fluxos energéticos pelo Estreito de Ormuz deve atingir 80% da capacidade até o final do terceiro trimestre de 2026. Contudo, a normalização completa da cadeia de abastecimento — incluindo a recomposição de estoques e a redução de custos com rotas alternativas — pode levar até 12 meses. “A reabertura é um alívio, mas não resolve o problema estrutural”, afirmou um analista ouvido pela Fortune. “Os estoques globais ainda estão em níveis críticos, e a demanda por petróleo permanece alta, especialmente em economias emergentes.”
Pressão inflacionária persiste, mesmo com a volta da navegação
Para o consumidor final, a reabertura do Estreito de Ormuz não deve se traduzir em quedas significativas nos preços da gasolina nas próximas semanas. A Agência Internacional de Energia (AIE) já havia alertado, em maio de 2026, que os preços dos combustíveis poderiam permanecer 15% acima da média histórica até o fim do ano, mesmo com a volta da navegação. A volatilidade no mercado futuro de petróleo, que registrou alta de 12% desde o início do bloqueio, reflete a incerteza sobre a velocidade da recuperação.
Consequências para o Brasil e o mercado latino-americano
No cenário latino-americano, a dependência de importações de petróleo — especialmente do Golfo Pérsico — torna a região particularmente vulnerável. O Brasil, que já reduziu a alíquota do PIS/Cofins sobre combustíveis em maio de 2026 para conter a inflação, pode manter políticas de subsídio temporárias caso os preços não se estabilizem. Analistas do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) estimam que, se a recuperação do Estreito de Ormuz for mais lenta do que o esperado, a gasolina poderia custar R$ 0,30 a R$ 0,50 a mais por litro até dezembro de 2026.
Embora a reabertura do Estreito de Ormuz seja um marco geopolítico, seu impacto nos preços da gasolina dependerá não apenas da restauração da navegação, mas também da capacidade dos produtores de recompor estoques e dos governos de mitigar pressões inflacionárias. Por ora, o mercado segue cauteloso: a estabilidade está a caminho, mas não é iminente.
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