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PF aperta cerco ao banco de Edir Macedo: entenda os quatro pilares da investigação que abalou o Digimais

Jeverson
24 de junho de 2026 às 11:51
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PF aperta cerco ao banco de Edir Macedo: entenda os quatro pilares da investigação que abalou o Digimais

Controlador do Digimais, Edir Macedo vê o banco sob investigação da Polícia Federal em uma operação que apura supostas irregularidades financeiras e práticas semelhantes às identificadas no caso Banco Master. 📸 Reprodução/Instagram @bispomacedo

Investigação aponta manipulação de balanços, superavaliação de ativos e práticas semelhantes às identificadas no caso que levou ao colapso do Banco Master

 

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem, que apura supostas irregularidades envolvendo o banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da RecordTV. A ação resultou no cumprimento de nove mandados de busca e apreensão contra executivos, conselheiros e empresas ligadas ao grupo.

Por determinação da Justiça Federal de São Paulo, foram autorizados o bloqueio de bens de até R$ 670 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

Em nota, o Digimais informou que permanece à disposição das autoridades e destacou que mantém seu compromisso com a transparência e a colaboração com os órgãos responsáveis pela apuração dos fatos. Procurado, Edir Macedo não se manifestou.

Suspeita de ocultação da real situação financeira

As investigações apontam que dirigentes da instituição teriam adotado mecanismos para mascarar a condição financeira do banco, apresentando aos órgãos reguladores uma imagem de solidez incompatível com a realidade patrimonial da empresa.

Entre os investigados estão o diretor jurídico Marcelo de Lima Brasil, o presidente interino João Alves de Campos, o diretor contábil Rodrigo Ruggero, os conselheiros e bispos João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja, o gestor de fundos José Roberto Giancoli Filho e o diretor da ID Serviços Financeiros, Rodrigo Balassiano.

Segundo a Polícia Federal, os suspeitos podem ter praticado crimes relacionados à gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em demonstrativos financeiros e realização de operações vedadas pela legislação bancária.

O montante bloqueado judicialmente corresponde, de acordo com apuração do Banco Central, à diferença entre o valor efetivamente pago por determinados ativos financeiros e o valor registrado nos balanços da instituição.

Reavaliações sucessivas teriam inflado patrimônio do banco

Um dos principais focos da investigação envolve créditos originados de uma ação judicial movida contra a União na década de 1960. Conforme as apurações, participações nesses créditos foram adquiridas por fundos ligados ao banco e posteriormente reavaliadas diversas vezes, sem fundamentos econômicos compatíveis.

A prática teria elevado artificialmente o patrimônio da instituição, gerando uma receita contábil estimada em R$ 199 milhões.

Quando o Banco Central determinou a correção desses valores, os investigadores afirmam que teria sido firmado um contrato entre o banco e sua própria controladora com o objetivo de adiar os ajustes contábeis até 2032, preservando nos registros um valor que continuaria sendo tratado como ativo a receber.

A situação ganhou novos desdobramentos um dia antes da operação policial, quando a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota de crédito de longo prazo do Digimais e anunciou a retirada definitiva da cobertura sobre a instituição.

De acordo com a agência, a decisão foi motivada pela ausência de informações financeiras atualizadas e suficientemente confiáveis para sustentar novas avaliações de risco.

PF identifica semelhanças com o caso Banco Master

A Polícia Federal também vê paralelos entre as práticas atribuídas ao Digimais e aquelas que marcaram a trajetória do Banco Master antes de sua liquidação.

Segundo os investigadores, ambas as instituições adotaram uma estratégia agressiva de captação de recursos por meio da oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remuneração superior a 110% do CDI, atraindo investidores em busca de retornos acima da média do mercado.

As apurações indicam ainda que ativos teriam sido superavaliados para ampliar artificialmente o patrimônio do banco e sustentar novas captações. Entre os exemplos citados pela PF estão títulos antigos ligados à Vale, um terreno em Pernambuco e uma carteira de financiamento de veículos que, somados, representariam bilhões de reais em avaliações questionadas.

Outro ponto destacado pela investigação é a troca frequente de auditorias independentes, prática que, segundo os investigadores, poderia dificultar a identificação e o registro de ressalvas sobre os ativos contabilizados.

A relação entre Digimais e Master também teria envolvido operações financeiras expressivas. O banco ligado a Edir Macedo adquiriu cerca de R$ 600 milhões em carteiras de crédito originadas pelo Master, ativos que passaram a enfrentar incertezas após o agravamento da crise da instituição de Daniel Vorcaro.

Especialistas citados nas investigações estimam que o Digimais necessitaria de um aporte superior a R$ 7 bilhões para atender plenamente às exigências regulatórias de liquidez impostas pelo Banco Central.

Operação pode dificultar negociação com o BTG Pactual

As dificuldades financeiras da instituição já haviam impulsionado tentativas anteriores de venda do banco.

Uma negociação anunciada no início de 2025 acabou interrompida poucos meses depois em razão do avanço de investigações envolvendo o grupo comprador. Posteriormente, em abril deste ano, foi firmado um acordo com o BTG Pactual, cuja conclusão ainda depende de autorizações do Banco Central, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e de entendimentos com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Com a deflagração da Operação Miragem, pessoas envolvidas nas negociações avaliam que a concretização do negócio se tornou mais incerta.

Diante do novo cenário, o futuro do Digimais passa a depender, em grande medida, das conclusões das investigações e das decisões que serão tomadas pelos órgãos reguladores do sistema financeiro nacional.

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