Um estudo realizado em Belém e São Paulo entrevistou 94 gestantes e puérperas, juntamente com 37 profissionais de saúde
Um estudo inédito do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado na manhã desta segunda-feira (13 de julho de 2026), escancara as contradições do sistema obstétrico brasileiro. Enquanto 70% das gestantes brasileiras almejam um parto vaginal no início da gravidez — segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) —, a realidade se impõe: apenas 43% das mulheres conseguem concretizar esse desejo, segundo o novo relatório.
O paradoxo brasileiro: preferência pelo natural vs. prática da cesárea
O levantamento, intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, entrevistou 94 gestantes e puérperas em Belém e São Paulo, além de 37 profissionais de saúde. Os resultados demonstram que a decisão pelo tipo de parto transcende a escolha individual, sendo moldada por três pilares estruturais: o acesso limitado à analgesia, a ausência de acompanhamento contínuo e a fragilidade na implementação do Plano de Parto.
O que impede o parto natural? A raiz das barreiras identificadas
Entre os obstáculos mais citados pelas participantes, destacam-se:
- Orientações superficiais durante o pré-natal: Muitas gestantes relatam receber informações genéricas sobre os riscos do parto vaginal, sem discussão aprofundada sobre seus benefícios ou técnicas para manejo da dor.
- Falta de participação do parceiro no processo: A presença de um acompanhante — especialmente em instituições públicas — nem sempre é garantida, reduzindo o suporte emocional e logístico durante o trabalho de parto.
- Desconhecimento sobre o Plano de Parto: Embora previsto pela Lei do Plano de Parto (Lei Federal 11.108/2005), apenas 28% das entrevistadas tinham ciência de que poderiam registrar suas preferências para o momento do nascimento.
- Acesso restrito a analgesia: A oferta de métodos não farmacológicos (como banho morno ou massagem) e farmacológicos (como a analgesia peridural) é desigual, concentrando-se em hospitais privados e dependendo de disponibilidade local.
Sistema de saúde e cultura médica: o viés contra o parto vaginal
Os dados revelam um viés institucional na abordagem obstétrica. Profissionais de saúde, pressionados por protocolos hospitalares ou pela demanda por agendamentos, tendem a recomendar cesáreas — muitas vezes desnecessárias — como forma de otimizar tempo e recursos. Segundo a pesquisa, 62% das cesáreas não planejadas ocorreram em instituições públicas, onde a falta de leitos e a superlotação agravam a situação.
“O parto normal não é apenas uma escolha da mulher, mas um direito que depende de um ecossistema de apoio”, afirma a coordenadora do estudo, Dra. Mariana Costa, epidemiologista do Unicef. “Precisamos urgentemente de políticas públicas que garantam acompanhamento longitudinal, educação perinatal e infraestrutura adequada.”
Consequências além do nascimento: impacto a longo prazo
A decisão imposta de uma cesárea não planejada — especialmente em casos de baixo risco — pode acarretar complicações como infecções, hemorragias e problemas respiratórios no recém-nascido, além de aumentar os riscos de depressão pós-parto e dificuldades na amamentação. Para o bebê, estudos associam cesáreas eletivas antes de 39 semanas a maior incidência de asma, alergias e obesidade infantil.
Diante desse cenário, especialistas defendem a humanização do parto como estratégia para reduzir as cesáreas desnecessárias. “É preciso desconstruir a ideia de que o parto vaginal é sinônimo de sofrimento”, argumenta a enfermeira obstetra Luciana Silva. “Com uma rede de apoio efetiva, a maioria das mulheres pode vivenciar um nascimento seguro e empoderador.”




