Há lembranças que o tempo não consegue envelhecer.
Podem passar dez, vinte, cinquenta ou sessenta anos, e elas continuam guardadas em algum cantinho da memória, esperando apenas uma palavra, um lugar ou uma imagem para voltar à vida.
Esta aconteceu comigo quando eu tinha 17 anos, na década de 1960.
Naquele tempo, a vida era muito diferente.
Não havia televisão para ocupar as noites, muito menos internet, celular ou tantas outras coisas que hoje fazem parte do nosso cotidiano.
Aos sábados e domingos, uma das principais diversões dos jovens era ir ao cinema.
E cinema era um acontecimento.
Mas havia também um ritual que fazia parte dessas noites de fim de semana.
Em frente ao Cine Campinas, na Avenida 24 de Outubro, formava-se uma espécie de corredor de jovens.
De um lado e de outro ficavam os rapazes, enquanto, entre eles, as moças passavam numa verdadeira passarela, caminhando devagar, conversando e, muitas vezes, trocando aqueles olhares que diziam muito, embora quase nada fosse dito.
Era uma época de namoros mais discretos, de encontros marcados no cinema e de amizades que, não raro, começavam com um simples olhar.
Eu morava a apenas três quarteirões da antiga Matriz de Campinas e, por isso, participava assiduamente daquele movimento.
Numa dessas noites, resolvi ir ao Cine Campinas.
Havia um filme que estava despertando a curiosidade de todo mundo: Conde Drácula.
Cheguei um pouco atrasado.
A fila estava grande e não consegui lugar na primeira sessão.
Acabei entrando na segunda, que começava depois das nove horas da noite e terminava depois das onze.
Para aqueles tempos, o filme era assustador.
Drácula aparecia com sua capa preta, os dentes afiados e o rosto pálido, cercado de sombras.
Havia mordidas, sangue e cenas que faziam a imaginação trabalhar muito mais do que qualquer efeito especial seria capaz de fazer hoje.
Quando o filme terminou, saí do cinema tentando convencer a mim mesmo de que aquilo era apenas ficção.
Havia, porém, um problema:
Eu estava sozinho.
E precisava caminhar até minha casa.
Pouco tempo antes, aquela região estava cheia de jovens, conversas, risadas e movimento.
Agora, a cidade parecia adormecida.
Naquela época, quase não havia carros circulando à noite.
As calçadas estavam vazias e a iluminação deixava grandes trechos da rua mergulhados na penumbra.
Para completar, caía uma garoa fina, dessas que deixam a noite úmida e fria.
Comecei a caminhar, procurando não pensar no filme.
Mas as imagens do Drácula ainda estavam frescas na minha cabeça.
Havia um trecho do caminho, onde eu passava em frente à antiga Matriz.
Quando me aproximei da igreja, vi sua enorme porta de madeira.
Foi então que aconteceu.
De repente, saiu de dentro da igreja uma figura alta, usando uma capa preta.
Parei por uma fração de segundo.
Meu cérebro não procurou explicação.
Não pensei em padre, em alguém simplesmente saindo da igreja ou em qualquer outra possibilidade razoável.
Pensei apenas:
Drácula!
Afinal, eu acabara de vê-lo no cinema.
Não havia tempo para investigar.
Eu simplesmente corri.
Corri como talvez nunca tivesse corrido antes.
Minha casa ficava a uns quatrocentos metros dali, mas naquela noite parecia estar a quatro quilômetros.
Só parei quando cheguei em casa.
Hoje, tantos anos depois, fico imaginando quem seria aquele homem.
Provavelmente alguém que simplesmente estava saindo da igreja. Talvez a capa fosse apenas uma proteção contra a garoa.
Ele jamais deve ter imaginado o susto que provocou naquele rapaz de 17 anos.
Mas o medo não costuma pedir licença para entrar.
Naquela noite, chegou acompanhado pelo Conde Drácula.
Hoje, quando me lembro daquele episódio, não sinto mais medo.
Sinto saudade.
Saudade daquela Campinas de outros tempos, das noites de cinema, dos amigos, dos namoros que começavam com um simples olhar e daquela cidade quase silenciosa depois que todos voltavam para casa.
Era uma Campinas que hoje existe mais na memória do que nas ruas.
Naquela noite, eu não encontrei o Conde Drácula.
Encontrei apenas um homem de capa preta saindo da antiga Matriz.
Mas, para um rapaz de 17 anos, sozinho, numa noite escura e garoenta, logo depois de assistir a um filme de vampiro…
Drácula estava ali.
E eu, naturalmente, preferi não esperar para descobrir.





